Escritora percorre o mundo para mostrar a morte do feminino
- Autora de "Monólogos
da Vagina" começa seu novo projeto no Brasil
Cláudio Cordovil
A mulher está desaparecendo quando mais parecia estar
em evidência, a julgar pela obsessiva busca de beleza
que movimenta a vida dos leitores de variedades nos jornais
brasileiros. "Assistimos a morte do feminino''. Quem denuncia
é a dramaturga, poetisa e feminista norte-americana Eve
Ensler, que esteve no Rio de Janeiro no início de abril
para lançar sua premiada peça Monólogos
da vagina (Ed. Bertrand Brasil), já traduzida em 15 idiomas.
Para Ensler, lipoaspirações são abortos
corporais e implantes cosméticos de próteses de
silicone são versões atualizadas da mutilação
sexual. Ensler acredita que por trás deste fenômeno
está o nojo do corpo e o péssimo conceito que
a maioria das mulheres tem de sua imagem corporal. Desconectadas
de seus desejos, coisificadas pela mídia e pelo "capitalismo
consumista", as mulheres teriam, na linguagem, uma poderosa
arma para sua afirmação como sujeitos.
Em uma sociedade que não estimula a descoberta ou celebração
da sexualidade feminina, apoderar-se de palavras é ganhar
poder. Observe o destino da palavra "vagina'' na cultura
ocidental. Não é uma palavra de baixo calão.
Não é um termo depreciativo. Não designa
uma doença desfiguradora. Não traz má sorte
a quem a profere. No entanto, é indizível. Ou
pelo menos era, até bem pouco tempo. Em seu lugar pululavam
pererecas, perseguidas, pombinhas, negócios, vulvas e
outros termos mais infantis e menos lisonjeiros. "O fato
de nossas mães não chamarem pelo nome nossas vaginas,
denominando-as com termos infantis, transforma nossa sexualidade
naquela de uma menininha'', afirma. Se Eve Ensler, em sua passagem
pelo Brasil, ouvisse as letras de músicas baianas provavelmente
não se abismaria com a regressão da sexualidade
em calientes terras tropicais. É um tal de carrinho-de-mão,
pirulitinho, bambolezinho, chupetinha que parece que o jardim
das delícias se mudou para o jardim de infância.
Dita assim, a seco, na economia de suas seis letras, "vagina''
parece assustar. Cora as pudicas ou suscita o risinho maroto
do licencioso. Contudo, para Ensler, este substantivo feminino
tem o mágico poder de adjetivar, trazer qualidade, à
vida de quem o expressa. Em Monólogos da vagina, dirigida
no Brasil por Miguel Falabella, Ensler a incluiu 128 vezes.
O resultado é libertação, tanto para quem
a profere, como para quem a escuta. "Desde que comecei
a criar Monólogos da vagina fiquei mais conectada a esta
parte de meu corpo. Agora, minha vida é muito mais profunda.
Sei muito bem meu propósito aqui, conheço meu
caminho de vida, sei onde está meu desejo, estou conectada
a ele em suas dimensões sexual, artística, filosófica
e espiritual. A mulher sempre se voltou para o desejo de terceiros
e se preocupou em conhecer os desejos de outrem. Mas quando
a mulher entra em sua vagina é quase impossível
não saber onde está o seu desejo. Nomear a vagina
é o comeco deste processo. Quando você dá
o nome a algo voce o possui'', define.
Machistas empedernidos devem agora estar pensando que isso
é 'conversa de mulherzinha'. Mas o assunto é sério.
Em Promiscuidades (Ed. Rocco), Naomi Wolf revela o ônus
para a história da humanidade da desconsideração
pelo que realmente quer uma mulher. "Nossa resistência
a lidar com a verdadeira natureza do desejo feminino é
destrutiva para nós como sociedade. Metade dos casamentos
termina em divórcio; a maioria dos divórcios é
de iniciativa das mulheres. Pelo menos alguns deles são
de iniciativas de mulheres que estão cansadas de perceber
que seus sentidos morrem à míngua, que se sentem
solitárias em termos eróticos''. Para as feministas,
o mundo seria outro se o desejo fosse o motor da História.
"Como seria nossa cultura se ousássemos ensinar
aos homens as técnicas que pudessem manter os corpos
promiscuamente sensíveis das mulheres felizes em vidas
monógamas?'', continua Naomi Wolf.
Contrapartida sinistra desta conversa que, para os machistas,
deveria se travar na cozinha é o incremento da violência
contra a mulher. Ensler calcula que a cada ano 500 mil mulheres
são estupradas nos Estados Unidos. O bordão "Não
se deprecie, mulher!" do antigo programa humorístico
parece salvar vidas. "Acredito que o fato de a maioria
das mulheres do mundo passarem sua vida defendendo-se contra
a violência real ou antecipada ou mesmo dela se recuperando
em vez de ocupar-se em produzir, imaginar ou realizar coisas
a seu favor que movem o mundo significa que estamos desperdiçando
um de nossos recursos fundamentais''. Foi isso que motivou o
V-Day, um evento beneficiente criado por Ensler que, em 1998,
reuniu no palco do Hammerstein Ballroom Theater, de Nova York,
atrizes como Glenn Close, Susan Sarandon, Whoopi Goldberg, Marisa
Tomei e Winona Ryder dentre outras. A peça percorreu
15 universidades americanas e arrecadou US$ 1 milhão
de dólares para entidades que denunciam a violência
contra a mulher.
Para Ensler, capitalismo turbinado, danos ambientais e violência
contra a mulher caminham juntos. "Em todos os lugares por
que passei em minhas entrevistas para compor Monólogos
da vagina a água estava poluída", revela.
No Rio de Janeiro, a tese se confirmou. "Nós não
amamos a Terra, nós a sugamos, nós a exploramos.
Qual é a diferença entre a poluição
ambiental e a violação de uma mulher? Nenhuma.
Dominacão, violação, nenhuma consideração
pelo sagrado, nenhum apreço pelo que é original.
O que é original? O que encontramos na Terra. Subitamente
podemos fazer isto ficar melhor, realmente acalentador. Mas
isto é distinto do ideal de perfeição estimulado
pela indústria da beleza, que é fascismo estético.
Não é sexualidade. Esta é algo mais caótico'',
dispara. Ensler endossa aqui as teses do ecofeminismo, termo
cunhado por Françoise d'Eaubonne em 1974 para evidenciar
o potencial feminino para se deflagrar uma revolução
ecológica.
O desejo de escrever Monólogos da vagina surgiu em 1996,
quando Ensler ouviu o desabafo de uma feminista na menopausa.
"Ela falava sobre sua vagina de uma forma tão desrespeitosa
que fiquei chocada''. Para Ensler, as mulheres praticam uma
cisão entre corpo e mente. Mas mens sana anda junto com
o corpore sanum. Apesar de pensarem corretamente, segundo ela,
não conectam esta experiência com seus corpos.
E aí vem à baila o assunto da nudez, que para
algumas feministas ortodoxas é sempre desqualificadora
da mulher. Eve não pensa assim. "Toda vez que a
mulher é convertida em objeto, quando tem sua cabeça
separada do corpo em revistas masculinas , algum tipo de mutilação
de fato está ocorrendo. Mas penso que a nudez em certas
circunstâncias pode ser magnifica e dar poder à
mulher. No entanto, dependendo do ângulo e do contexto,
pode ser completamente humilhante. É quando a sexualidade
da mulher é confiscada e explorada".
O conservadorismo em matéria de desejo feminino na atualidade
e sua regressão ao tatibitate dos hits baianos tem, para
a feminista, sua razão de ser. De fato, puritanismo e
capitalismo sempre caminharam juntos, como já nos ensinou
Max Weber em Ética protestante e o espírito do
capitalismo. "As grandes religiões e o capitalismo
consumista, unidos, representam a morte da mulher. Vi o profundo
impacto disso pelos lugares do mundo por onde passei, ao entrevistar
mulheres para Monólogos da vagina. Não houve país
em que as mulheres falassem que gostam de seu corpo, aceitam
o seu corpo, que se sentem bem com ele. Na verdade elas queriam
sair dele, se distanciar , se mutilar, expeli-lo pela bulimia
nervosa ou definhá-lo pela anorexia. Fazer um lifting
ou uma lipoaspiração é quase como se livrar
de um lixo que as mulheres pensam poluí-las. As mulheres
foram condicionadas a ver sua sexualidade como suja. Ter desejos
é ser mais feia.'', analisa Ensler. A fusão problemática
entre dinheiro e beleza teve sua metáfora mais interessante
nos últimos dias. Uma modelo brasileira casada com um
empresário americano aceitou aumentar seus seios desde
que ganhasse uma Mercedes.
Eve Ensler começou no Rio de Janeiro seu mais novo projeto,
que se converterá em um livro, uma peça e um documentário
para a emissora HBO. Trata-se de Points of re-entry (Pontos
de reentrada) onde a dramaturga percorre o mundo em busca de
mulheres que aceitam se mutilar para se adequar a padrões
culturais. Eve assistiu cirurgias plásticas cosméticas
no Rio pela primeira vez. Ficou horrorizada. "É
uma operação brutal, incrivelmente violenta. É
um padrão de beleza que nada tem a ver com estas mulheres
mas lhes é imposto. Fascismo corporal''. As belas que
nos desculpem. Mas para Eve, ao que parece, beleza não
é fundamental.
(Publicado no jornal Valor Econômico, em 22 de maio de
2000)