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Apontamentos de Crítica Cultural
Beatriz Resende
Entrevista com Beatriz Resende, autor de Apontamentos
de Crítica Cultural (Aeroplano Editora)
1) Quando e porque você, crítica literária
ferrenha, aderiu aos estudos culturais e aos temas considerados
como menos nobres pela academia?
Os Estudos Culturais são justamente o viéis,
o olhar, a "atividade", ou o desejo, como diz Frederic
Jameson, através dos quais as manifestações
culturais e artísticas não canônicas se
incorporam aos estudos e pesquisas realizados nas universidades.
Creio que, desde o Mestrado, quando estudei
a literatura de Lima Barreto, nos anos 80 ainda considerado
um autor "menor", a literatura "off Brodway"
já me interessava. Depois, no Doutorado, com o Lima
já voltando à cena, preferi trabalhar com as
crônicas e o estupendo Diário do Hospício.
Aí percebi que não podia ficar só nos
estudos literários, tinha que ler e investigar tudo
que dizia respeito à cidade, ao Rio de Janeiro dos
anos 10, 20. E mais, que era impossível trabalhar estes
textos sem pensar na questão de raça no Brasil,
na discriminação imposta aos pobres e aos loucos.
Depois de defender a tese de Doutorado, em89, me juntei ao
grupo que pesquisava questões de gênero e raça
no CIEC. Criamos, depois, o PACC - Programa Avançado
de Cultura Contemporânea - na UFRJ, especialmente dedicado
aos Estudos Culturais. O curioso é que, a partir daí,
com o trânsito interdisciplinar "oficializado",
fui voltando cada vez mais ao texto literário.
Em 2000 - 2001, freqüentei por um ano
o Programa de Pós-Graduação em Antropologia
Social do Museu Nacional, em um estágio de pós-doutorado
orientado pelo prof. Otávio Velho. Este ano de convívio
com o rigor metodológico na investigação
sobre cultura me deu mais coragem de tratar temas que sempre
cruzaram meus caminhos, como a música popular. É
deste período a escrita do mais teórico dos
capítulos que compõem o livro, o primeiro "A
indisciplina dos Estudos Culturais".
2) Qual a linha mestra deste seu novo livro, Apontamentos
de crítica cultural?
Exceto pela reflexão teórica sobre Estudos
Culturais e a questão das disciplinas em que se organiza
o saber acadêmico, os ensaios preocupam-se, sempre,
em atravessar de barreiras separatistas: a ficção
contemporânea dialoga com o cinema, a Utopia de Thomas
More com o Gladiator de Riddley Scott, os contos da literatura
recentíssima com o rap ou o funk. A questão
da cidade continua me obcecando. O menor, o de fora, o excluído
me inspiram mesmo quando leio os grandes autores. Por isso
é que o Drummond presente é o caminhante das
ruas do Rio e a Ana Ccristina César é a da cartas,
da literatura da intimidade.
3) Ultimamente você vem se dedicando à critica
em suplementos e revistas culturais. Como anda o jornalismo
cultural em relação à produção
acadêmica strito sensu?
O jornalismo cultural sempre tenta, mas não pode tirar
leite de pedra. Sem manifestação cultural que
preste não pode haver jornalismo cultural que nos satisfaça.
Hoje, porém, a literatura brasileira, a meu ver, vive
um grande momento. Foi cumprido o luto pós-ditadura.
Novas subjetividades assumem suas próprias vozes. O
cinema está aí despertando, outra vez, debates.
Resultado, mesmo com o preço caro do papel do jornal
e o espaço cada vez menor, o jornalismo cultural, tendo
de que falar, descobre formas de se expressar.
O uso da web e a criação de jornais e revistas
na internet tem funcionado como provocação e
estímulo.
Escrever em jornais eletrônicos, como o "No.com",
que agora virou o "no mímino", foi das experiências
intelectuais mais excitantes que experimentei.
4) Na sua opinião, qual o feitio atual dos estudos
literários no Brasil?
Velhuscos. Quase sempre fora de moda. Continua havendo uma
reverência excessiva aos modelos eurocêntricos.
Mas também tem muita coisa boa. A interpelação
da História, primeiro, de uma parte da Antropologia,
em seguida, têm sido estimulantes.
Os intelectuais diaspóricos e a produção
da crítica latino-americana são, a meu ver,
as melhores contribuições que os estudos literários
brasileiros vêm recebendo.
5) Há uma nova geração de críticos
literários surgindo com força e vontade política?
Ou essa é uma figura em extinção?
O grande crítico literário será sempre
aquele que for um grande intelectual, independente das injunções
de tempo e espaço. Senão vira especialista,
no sentido que Sartre dava ao termo, e se empobrece.
A novidade talvez seja a troca que voltou a acontecer entre
o crítico de jornal e o da universidade. Aquele que
ocupa um espaço acadêmico aprendeu a respeitar
a crítica jornalística, e os jornalistas abriram
oportunidade para que professores universitários, pesquisadores,
escrevessem em jornais. Os dois lados estão ganhando
com isso.
Os ocupantes do mundo "oficial" das letras foram,
por muito tempo, resistentes a uma interação
mais direta com a sociedade. A tendência do mundo universitário
a ver o universo do saber como convento, fechado ao mundo
"laico" que urra do lado de fora, resultou, em muitos
casos, na própria rejeição da literatura
produzida na contemporaneidade.
6) Quais os highlights do que se poderia chamar hoje uma
cultura urbana brasileira?
O mais importante me parece ser sempre a mistura de que a
grande cidade é palco. Veja-se o caso da música:
a música popular é tão forte, tão
segura de sua importância, que não teme a renovação,
o diálogo entre um gênero e outro, entre uma
geração e outra. A MPB "clássica",
por exemplo, faz parceria, sem dor, com reggae, funk, incorpora
contribuições e influencia quem chega.
Não teme a pós-modernidade.
7) Qual o traço diferencial da ficção
dos anos noventa, um tema recorrente no seu trabalho?
Antes de mais nada a pluralidade: em temas e formatos. Também
um abandono do ufanismo dos anos 80, aquela necessidade de
retomar a brasilidade que nos fora tomada durante os anos
do regime autoritário que marcou grande parte da produção
daquela década. Felizmente a onda do romance histórico
também já murchou.
O que muitos não querem ver é a altíssima
qualidade da ficção que vem sendo produzida,
como, por exemplo, a dos romances e contos de Rubens Figueiredo.
8) Confesse seus autores prediletos.
Em ficção brasileira é impossível
não falar dos "clássicos", como Machado
e Guimarães Rosa. Pena que mesmo Machado seja uma vítima
dos estudos canônicos. As crônicas, por exemplo,
não estão ainda sequer completamente republicadas.
Quanto a Guimarães Rosa, é preciso que alguém
se ocupe em libertá-lo do peso dos estudos acadêmicos,
sobretudo os dos momentos de glória do estruturalismo.
Trazê-lo de volta aos leitores que andam rejeitando
qualquer coisa que cheire a regionalismo. O teatro, com encenações
magníficas como as de "Meu tio o Iauretê
"e de "Sarapalha", fez, no Brasil, mais por
Guimarães Rosa do que a crítica literária.
Dos contemporâneos, prefiro não falar, gosto
de tantos que fica difícil. Nisso de "prediletos",
sou meio volúvel.
Ficando sempre na ficção, o autor capaz de me
despertar um prazer dostoiewiskiano, hoje, é o sul-africano
J.M. Cotzee. A literatura e a música - especialmente
o jazz - sul-africanos, são a prova da importância
da cultura que se desenvolve fora dos tradicionais grandes
centros emissores dos século XX.
9) Fale de seus projetos futuros.
Estou preparando uma edição nova de todas as
crônicas de Lima Barreto e ainda hei de acabar o projeto
que me é mais caro: o livro sobre a Literatura Art-Déco
em que venho trabalhando há anos. Quero juntar com
imagens, com a arte gráfica déco produzida no
Brasil, o que anda retardando a conclusão.
10) O que você está lendo no momento?
Tenho tentado ler tudo que posso sobre a questão do
intelectual contemporâneo, sobre o papel cabe hoje a
este personagem do século passado. Depois do 11 de
setembro de 2001, os intelectuais parecem ter recuperado vozes
perdidas, o que é preciso observar com cuidado. Acabei
Campeonato , romance do Flávio Carneiro, um prazer.
Emendei São Paulo do Fernando Bonassi com As máscaras
singulares, apresentado como livro de poesia do Luiz Ruffato,
de quem sou fã. Está sendo provocante conferir
a questão dos limites - ou não - entre os contos
curtíssimos de Bonassi e a poesia de um prosador como
o Ruffato.
Minha filha me disse que não posso deixar de ler A
rocha que voa, organizado pelo Eryk Rocha e fiquei curiosa
em voltar ao Glauber pelas mãos da geração
seguinte.
Foi uma alegria ver o Giorgio Agamben e o Rafael Argullol,
dois grandes filósofos contemporâneos, finalmente
traduzidos e poder ler junto com os alunos.
Confesso que a internet me ocupa bastante tempo. Ter o Babelia,
do El Pais, a London Review of books, a Letras Libres, mexicana,
o Le Monde e tudo o mais ao alcance do mouse, é uma
tentação. E ainda vem o Paulo Roberto Pires
dizendo que é preciso conhecer os weblogs, só
para me provocar!
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