| Camila
e o Espelho
Lilia Gramacho
Lilia Gramacho Calmon é baiana, de Itabuna.
Passou a maior parte da sua infância em Uruçaba.
Formou-se em Jornalismo e publicidade, em Salvador, e atualmente
trabalha desenvolvendo programas para a televisão.
A Aeroplano Editora lança o primeiro livro infanto-juvenil
do seu catálago e o segundo de Lilia, “Camila
e o espelho”.
1. O seu livro de estréia, O filho
do meio, lançado pelo Editora Formato, também
aborda questões adolescentes? A palavra, escrita ou
falada, é o veículo mais eficaz para se aproximar
dos jovens?
A palavra, certamente, é um importante
veículo de comunicação com jovens e crianças.
A magia dos contos de fadas é uma prova disso. Assim
como a literatura, eles vão colocando personagens nas
nossas vidas e, possibilitando que, através deles,
possamos nos relacionar com os nossos conflitos interiores.
E essa alquimia independe da faixa etária. Crianças
e adultos são tomados por ela. O Filho do Meio
é um exemplo. Embora seja um livro voltado para crianças
na faixa dos 7 anos, ele aborda um tema bastante universal:
os conflitos familiares entre 3 irmãos. Talvez essa
seja a razão para que , além da crianças,
ele agrade tantos os adultos.
2. Você acabou de lançar Camila
e o espelho, pela Aeroplano. Como se dá esse retorno
de poder falar a um público tão ávido
e curioso?
A minha verdadeira paixão está
na escrita. No delicioso desafio de contar uma história.
Nunca, antes, havia pensado sobre a questão do público.
Acho que a aproximação com as crianças
e adolescentes, na literatura, coincidiu com a minha experiência
da maternidade. Além disso, as crianças estão
sempre prontas para despertar a sua imaginação.
Poder tocar no coração de um público
tão exigente e cheios de estímulos é
maravilhoso. Camila e o Espelho está, de certo
modo, crescendo com o público d´O Filho do
Meio. Agora, mais próximo da adolescência,
ele se vê diante de novos conflitos, entre eles, o de
crescer.
3. Além da atenção para
com essa fase extremamente delicada e importante em nossas
vidas, há em sua obra uma preocupação
instrutiva, informativa. É inevitável?
Gosto de escrever margeando sempre a realidade.
Gosto de pensar e tocar a alma humana que, para mim, é
um mundo sempre desconhecido e cheio de surpresas. Ao fazer
isso, é inevitável abordar algumas questões
educativas. Mas isso, surge, muito mais pela demanda da própria
história e dos caminhos tomados pelos personagens do
que de um pensamento prévio. Embora goste quando isso
acontece, desde que não velha a parecer aquela velha
moral da estória.
4. Seus jovens leitores são críticos?
Claro que sim! O grande desafio de escrever
ou fazer qualquer coisa direcionada a esse público
é exatamente todos os questionamentos que eles fazem
sobre tudo. Difícil pôr um lado, instigante pôr
outro. Eles não perdoam falhas e parecem, muitas vezes,
estão atrás delas. Quem já teve a oportunidade
de ver um grupo de crianças num espetáculo de
mágica, sabe bem do que estou falando. Qualquer incoerência,
eles apontam. Questionam. Enfim, são super participativos.
5. A literatura infanto-juvenil vem, cada
vez, ganhando espaço no mercado. Isso é tardio?
Acho que tudo tem o seu tempo. Certamente,
com a chegada da televisão e dos novos estímulos
visuais, houve uma perda de espaço da literatura. As
crianças passaram a ler menos, mas ou adultos também.
Ainda lemos muito pouco se comparado com outros países.
Mas, com certeza, o incremento do mercado editorial infantil
é um excelente sinal. Mostra que há espaço
para tudo e que mesmo com tantos joguinhos eletrônicos
sedutores, as crianças ainda adoram de sentar para
ouvir histórias e ler um bons livro.
6. Você percebe algum movimento de
incentivo dos pais para que seus filhos assimilem o ato de
ler?
Acho que há um movimento dos pais nesse
sentido. Embora nem sempre perceba nesse movimento uma grande
coerência. Hoje é politicamente correto estimular
as crianças a lerem. Mas são poucos os pais
que lêem. As crianças precisam de referências.
É preciso haver espaço para o livro dentro de
casa. Um prazer que pode fazer parte de toda a família.
Quando os pais lêem, as crianças são mais
receptivas ao livro também.
7. Suas lembranças da infância,
vividas no interior, servem de fontes inspiradoras para suas
histórias. É uma espécie de “resgate”?
Há na ficção uma colagem
de muitas coisas. Histórias vividas por nós
mesmos, outras contadas pôr alguém, outras inventadas.
Minhas histórias são uma mistura de tudo isso.
O fato de ser mulher, faz com que eu use como referência
muitas lembranças da minha própria adolescência.
O medo de não saber beijar por exemplo. Mas são
lembranças que se confundem com outras observações.
Às vezes eu me perguntava: será que as meninas
de hoje ainda tem esse medo? Esse ir e voltar não deixa
de ser um resgate. Um túnel do tempo.
8. O fato de também lidar com programação
televisiva, deixa claro como a atual comodidade fornecida
por esses aparelhos é mais sedutor aos jovens que as
páginas de um livro?
A televisão tem sua mágica. E,
embora haja muito pouca programação infantil
de qualidade na Tv aberta, a Tv é um veiculo muito
sedutor. Mas, assim como o cinema não perdeu o seu
espaço, os livros também não perderão.
Com a internet, por incrível que pareça, as
crianças passaram a escrever e a ler mais. Na troca
dos e-mails, foram retomando uma aproximação
com as palavras. Estando mais próxima das palavras
é fácil trazê-las para os livros. Assisti
Tv é simples. Não exige nada. Ë uma atividade
de completa passividade. E muitas vezes se entregar a esse
deleite é delicioso. Mas é importante Ter limites
para que haja espaço para a diversidade
9. A personagem Camila, e os conflitos que
ela vive, são uma representação de todas
as meninas, diante da puberdade?
Não sou muito chegada à generalizações.
Mas acredito que alguns conflitos e medos da Camilinha sejam
vividos por muitas meninas dessa faixa etária. Talvez,
alguns anos atrás esses conflitos aparecessem um pouco
mais tarde. Hoje ele parece está começando cada
vez mais cedo. E o corpo responde a isso.
10. É na frente do espelho que Camila
ensaia seu primeiro beijo, que observa as mudanças
do seu corpo e que cria uma “rival-cumplicidade”.
O espelho é o portal. Aquilo que projeta, que reflete
o que não podemos ou queremos ver. Mais que o presente,
o espelho pode ser também o futuro?
Quem não lembra a velha frase da madastra
de Branca de Neve? O espelho carrega muitas simbologias. A
vaidade, está entre elas. No reflexo você pode
conversar com você mesma, entre aquilo que é
aceito e aquilo que não é. Na adolescência
isso ganha uma importância ainda maior, pois é
um momento da vida em que temos que lidar com a nossa vaidade.
Queremos ser diferentes e iguais, ao mesmo tempo. Diante do
espelho vamos nos dando conta do que somos e do que, futuramente,
gostaríamos de ser. Um exercício para a nossa
imaginação. Para aquilo que nos reserva o futuro.
Entrevista concedida a Fábio
Fabretti em fevereiro de 2003.
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