Da Favela para o Mundo: A História do Grupo Cultural Afro Reggae
José Junior

Aeroplano Editora
Categoria: Literatura & Ensaio
Número de páginas: 220
Formato: 20 x 23 cm
Preço: R$ 44,00
ISBN: 85-86579-46-7

Ao entrar na fila de imigração, logo vi que a coisa não ia ser tão fácil.
Mandaram-me direto para o "departamento investigativo".
Lá um agente chamado Javier me perguntou algo assim:
"Onde tu compraste este passaporte?".

Detido em 2002 no aeroporto de Porto Rico a caminho de Trinidad & Tobago para uma conferência sobre jovens patrocinada pela UNICEF, José Junior, coordenador do Grupo Cultural Afro Reggae, reage com tranqüilidade. Diante dos dois jovens adolescentes de Vigário Geral que viajavam pela primeira vez ao exterior para falar do sucesso do GCAR nas favelas cariocas, apavorados com a violência dos policiais da alfândega americana, Júnior lê trechos do livro de Che Guevara, mantém a calma, chama os policiais à razão.

Trecho que a primeira vista parece pouco contundente diante de tantos fatos da realidade carioca descritos com coragem por
José Junior em seu livro recém lançado "Da Favela para o Mundo" (Editora Aeroplano, 216 páginas, 2003), este chama a atenção pela ironia com que resume a importância e os desafios do trabalho realizado pelo Afro Reggae, desde 1993, com jovens das favelas do Rio de Janeiro que se tornou referência internacional. Na favela ou no mundo, a dignidade é sempre o melhor antídoto contra a irracionalidade dos preconceitos, das humilhações, das alienações.

"Da Favela para o Mundo" é a história da dignidade que se sobrepõe à violência, a exclusão, a discriminação para propor a liberdade e a lucidez não só para a maioria dos jovens atendidos pelos diversos projetos mantidos pelo GCAR no Rio de Janeiro, mas principalmente para os "donos do poder", os burocratas sociais, os secretários de governos, os diretores de escolas, a "galera geral". Talvez este espírito de altivez aliado a coragem e a muito trabalho com "originalidade dos métodos", explique esta história de superação que se torna referência apesar das dificuldades do cenário cotidiano das grandes cidades brasileiras.

Das dificuldades dos vários tipos de tráficos: das drogas, das armas, de poder e das influências. O livro, narrado velozmente em clima de contador de estórias, repleto de referências místico-religiosas, de letras musicais, de poemas, de fotos surpreendentes (como a da página 111 tirada no gabinete do Betinho no Ibase, com ele apadrinhando uma oficina de capoeira) dá a dimensão da fratura social em que estamos todos submersos. E prova que as saídas estão aí, nas centenas de jovens que preferem as bandas, as rodas de capoeira, as oficinas de percussão e de samba, os núcleos de trabalho do Afro Reggae, a um destino banal, porém previsível diante do abandono e do descaso da sociedade com quem vive do outro lado do túnel. Ou do outro lado da rua.

Zuenir Ventura, Waly Salomão (a quem Junior dedica o livro em homenagem póstuma), Caetano Veloso, Regina Casé, Lorenzo Zanetti, os meninos e meninas assassinados pela crueza dessa cidade e dessa época, os outros tantos vencedores do "fio da navalha", como lembra Zuenir em seu comovente prefácio, participam do livro de José Junior como personagens reais que impulsionaram a favela para o mundo.

Do projeto gráfico primoroso à narrativa e às indicações visuais e históricas, o livro é um convite à reflexão sobre os últimos 10 anos do Rio de Janeiro, e certamente uma inspiração para inúmeros jovens que nesta mesma hora estão reunidos em seus quartos, como José Junior em 1993, buscando desenhar um destino melhor, suspendendo a previsibilidade do ódio pela
ternura da dignidade que liberta.


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