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Esses Poetas - Uma Antologia dos Anos 90
Org. Heloisa Buarque de Hollanda
Entrevista com Heloisa Buarque de Hollanda
para o Suplemento Literário de Minas Gerais
Como é que você está vendo as primeiras
reações críticas à Antologia Esses
Poetas?
Acho totalmente normal a reação,
até porque a outra antologia (26 Poetas Hoje) já
teve essa reacão polêmica. Eu acho que a polêmica
sobre a antologia de agora reverbera ainda o debate sobre
a antiga. É quase uma ressaca da outra. Essa antologia
90 ficou muito em evidência certamente porque a anterior
lançou nomes e, à sua maneira, fez um cânone.
Um cânone absolutamente malcriado, porque era contra
tudo que era valorizado na época. Era contra o concretismo
e era contra a dicção solene. Você tinha
os poetas estabelecidos, tipo Nejar e outros (até João
Cabral...) e tinha a coisa "nova" na época
que eram as vanguardas experimentais. Tudo isso foi recusado
pela 26 Poetas Hoje, sendo eleitos aqueles que até
então não estavam em lugar nenhum. Foi uma astúcia,
uma travessura do destino. Oitenta por cento daqueles poetas
ficaram e hoje destacam-se na cena literária. Essa
reação que vemos hoje, esse segundo round, tem
muito a ver com a expectativa criada pelo impacto e pela permanência
da 26 Poetas Hoje. Se eu fosse poeta, eu gostaria de entrar
para essa nova antologia, porque eu veria essa inclusão
como um jogo tipo loteca, tipo raspadinha. Eu pensaria, "de
repente eu entro pro cânone". Se para aquela valeu,
por que não valeria para esta?
Em suma, Esses Poetas não é uma
primeira e inocente antologia. É uma segunda antologia
em relação a uma primeira que teve uma enorme
repercussão. O que eu acho que é muito diferente
na briga de agora é que está muito sem conteúdo.
Isso eu acho estranho. Até porque, como digo na introdução,
os poetas todos são críticos. São todos
intelectuais. Os da outra antologia não. Mas suscitaram
uma polêmica infinitamente mais interessante. Era um
debate sobre o concretismo, um confronto com João Cabral,
uma discussão sobre se aquela linguagem coloquial era
ou não era herança do modernismo, se estava
tudo errado, se os novo não valiam nada, enfim... Dessa
vez o que vem à tona é um discurso anacrônico,
pessoal, moral, estranhamente reacionário. Há
realmente uma diferença séria entre a discussão
de hoje e a daquela época. Na outra havia briga mas
era uma briga sobre valor estético, sobre opcções
políticas. Essa de agora é uma briga pequena,
apática, centrada em pessoas. Não vejo traços
de um debate de idéias. Fora Luiz Costa Lima, ninguém
ainda tocou na antologia, na poesia mostrada pela antologia.
Já que sua pessoa veio à baila,
como se relaciona a iniciativa da antologia com o teu momento
de vida e de trabalho? Por que você não teve
vontade de fazer uma antologia dos anos 80? Por que apareceu
essa vontade agora, nos anos 90?
Não apareceu não. A primeira
foi sob demanda. A vida inteira eu tive uma ligação
muito forte com questões contemporâneas, uma
procura recorrente em identificar tendências e sintomas
novos na produção cultural. . A primeira antologia
foi por encomenda. Foi o editor Juan Guitar que encomendou.
Eu trabalhava com poesia, eu gosto muito de poesia, na área
de literatura a minha especialidade sempre foi poesia. Eu
não gosto de ficção para trabalhar. Sempre
trabalhei com poesia. A minha tese foi sobre isso (Impressões
de Viagem, publicada em livro em 1981).
Antes de ser convidada a fazer a antologia
26 Poetas você se sentia parte de um movimento?
Me sentia. Sentia que era a minha geração.
Uma coisa interessante a observar é que a respeito
dessa nova antologia reclamam muito que tem gente moça
e gente mais velha misturada. Mas na outra também era
assim. A outra tinha duas gerações, uma muito
mais velha, que era a minha, do Chico, do Schwarz, muito mais
velha que a do Chacal e do Charles, quase 20 anos mais moça.
O gap era até maior na composição de
faixa etária. Eu estava totalmente ligada nas estratégias
e nos sintomas da possibilidade de resistência ao momento
político restritivo dos anos 70.. Essa sempre foi a
minha procura. Eu comecei a trabalhar na UFRJ em 64. Vivi
um momento de glória que foi de 64 a 68. A universidade
era o que havia de mais intrépido e calliente que podia
existir e, de repente, caiu. Desde então eu passei,
proustianamente, a procurar meu paraíso perdido, a
ligação entre produção de conhecimento
e intervenção crítica. Eu não
me sinto muito bem na pele de intelectual, nunca me senti,
fui sempre borderline, querendo diversificar meu raio de ação,
explorar novas formas de intervenção. Não
me levo muito sério ...
Que é isso Heloísa?? Eu te
levo a sério...
É verdade! Não acredito muito
em intelectuais encastelados. Essa é uma das razões
porque as pessoas ficam tão irritadas comigo. A maioria
realmente se leva muito a sério e eu não consigo
embarcar nessa.
Mas voltemos ao contexto de 64/68.
Desde esse momento em diante, então,
a universidade para mim signiificou participação,
eu fui formada por aquele momento fantástico de 64
a 68, aquela vibração muito grande. Quer dizer,
a minha idéia de produção acadêmica
estava ligada àquele tipo de universidade. De 68 em
diante, eu fiquei procurando como é que se podia ainda
estabelecer um elo com aquele espaço de participação.
Este é o maior tema do meu trabalho desde então.
Quais são as estratégias de resposta, resistência,
participação crítica possíveis?
Minha própria tese de doutoramento foi sobre isso,
uma indagação sobre que possibilidade ainda
havia de intervenção. Havia, na época,
um certo consenso sobre o silêncio, a apatia da produção
cultural, falava-se em vazio cultural, na ausência de
projetos. Aí fui procurar com uma lente, dizendo "pera
aí, não é bem assim, é possível
que o que vemos agora possam ser outras e novas formas de
participação." De lá até
aqui eu não fiz outra coisa, a não ser procurar
a possibilidade de uma literatura, de uma cultura independente,
de uma imaginação política e artística
possíveis em quadros de fechamento e restrições
sejam eles políticas ou econômicos. A antologia
26 Poetas Hoje mostrava isso, mostrava que aquela geração
acusada de maconheira, inculta e boba, na verdade, estava
propondo novas formas de participação literária.
E os anos 80, como é que se encaixam
nessa trajetória? 26 Poetas Hoje foi lançada
em 1976.
26 Poetas Hoje ecoou até 80 e tantos.
A permanência dela é espantosa. Aliás,
quando ela fez 10 anos ela voltou de novo à evidência.
Saíram milhares de matérias, acabei de fazer
esse levantamento para a pesquisa do João Cezar de
Castro Rocha sobre a crítica brasileira. E eram matérias
de briga, de polêmica. Dez anos depois, a turbulência
voltava. Mas nos anos 80 eu viajei, passei um tempo fora.
E depois, de volta ao Brasil, encontrei um momento interessantíssimo,
um momento de redemocratização, diretas-já,
enfim, a curva dos 80 foi na realidade a trajetória
de um novissimo exercício democrático. Neste
contexto, surge , nos meios acadêmicos, com mais forçam
a questão das mulheres, e eu me engajei nesse estudo,
trabalhei as teorias feministas e a literatura feminina com
enorme dedicação e abandonei um pouco as tendências
literárias mais gerais. Durante dez anos eu fiquei
ligada nessa, foi por aí que "participei"
nos 80. Num certo sentido, e continuava na mesma linha de
preocupação da época de 26 Poetas Hoje,
mas trabalhando um novo elenco de questões e, sobretudo,
num novo contexto. 80 foi uma época de afirmação
de identidades, de política acadêmica e era tudo
muito animado. O GT Mulher e Literatura da Anpoll (Associação
Nacional de Pós-Graduações em Letras
e Lingüística) era uma novidade real no quadro
dos estudos literários. A coisa estava viva. Era uma
atividade acadêmica e política em ebulição
muito legal. Apesar disso, todos os editores me pediam para
fazer uma nova antologia de poesia. Mas eu não estava
ligada nisso.
Paralelamente, você dando aula o tempo
todo.
Dando aula o tempo todo. Quando bateram os
anos 90, mudanças ocorreram. O debate teórico
feminista se estabilizou e perdeu o impacto produtivo inicial,
me parece. Pelo menos, o impacto epistemológico. A
interpelação teórica trazida pela questão
da mulher foi até onde tinha que ir. É óbvio
que a luta feminista continua e ainda é muito importante.
Estamos longe da sonhada igualdade. Mas no plano teórico
acadêmico, eu não vejo uma continuidade do rendimento
produtivo nesses estudos, a menos que comecem a promover novos
cruzamentos com outras questões como a racial, dos
gays, etc. Aí, nos anos 90, começou de novo
aquela conversa fiada de que não havia mais nada de
novo politica e culturalmente falando.
Que agora era tudo só consumo, tédio
e oportunismo. Ao mesmo tempo, começaram a aparecer
poetas com mais frequencia e presença. Na década
de 80, houve produção de poesia, houve novidades
na área, houve as performances do Botanic (casa noturna
no Rio), houve o Massi marcando a produção da
década com a Claro Enigma, uma coleção
belíssima, mas não percebi a poesia como acontecimento.
Em 90 a poesia ganha nova visibilidade, começa a aparecer
poeta pra todo lado numa situação muito parecida
com o que tinha acontecido nos anos 70. Os novos poetas dos
90 eram acusados de conservadores, oportunistas, a-críticos,
egocêntricos. Xingavam, xingavam, xingavam. Até
o senhor, doutor Italo. Aí me deu vontade de olhar
para os poetas de novo. Porque quando começa a aparecer
muito poeta, quando o campo de produção da poesia
começa a vibrar, é porque está acontecendo
alguma coisa na área mais geral da cultura. Uma produção
apenas apática, conservadora, estetizante, não
promove um acontecimento. Então eu fui estudar esse
acontecimento com rigorosamente a mesma pergunta da antologia
de vinte anos antes: a que e como está respondendo
essa produção? De que fala, na realidade, essa
poesia? Qual o espaço de criação e afirmação
crítica que ela ainda dispõe?
No sentido de fazer diferença? Como
você define o sentido de participar?
No sentido de que não é verdade
de que a geração atual é formada por
um bando de conformistas. Não faria sentido. Aí
procurei observar e analisar com cuidado poetas e poesia.
E desta vez foi muito difícil. Porque na outra antologia,
era muito fácil perceber posições estéticas
e/ou políticas. Ou você era contra ou a favor,
da situação ou da oposição. Eram
opções visíveis a olho nu. Desta vez,
essas distinções são sutilíssimas,
são pequenos sintomas, são filigranas complicadérrimas
para serem interpretadas.
Na introdução a Esses Poetas,
você diz que há uma tendência a minimizar
atritos por parte dos poetas, que essa geração
é mais da negociação e da articulação,
mas a sua opção enquanto assinatura autoral,
enquanto antologista, é pelo atrito.
A minha é, porque eu sou de uma geração
que procura o confronto, que procura o atrito. Mas eu não
estava avaliando negativamente as novas estratégias
de negociação, de forma nenhuma! Negociação
revela apenas uma gramática mais complicada de se afirmar
e de dizer alguma coisa. No momento é imprescindível
ter esse saber na área política, na área
econômica, na área literária, na área
sexual, em qualquer área.
Quer dizer: você assume que está
fazendo a antologia com o olhar de uma geração
outra, mas você está ouvindo, incorporando, o
que esta nova geração está te dizendo,
no sentido da negociação.
Nem poderia ser de outra forma. Meu olhar é
historicamente datado. O máximo que se pode tentar
para relativizar certos traços geracionais muito fortes
é desenvolver uma escuta atenta e desarmada ou "inocente"
como diriam os modernistas. O meu traço geracional
obssessivo seria, digamos, uma preocupação violenta
com a possibilidade de uma interpelação.
Eu me identifico com a tua geração,
mas eu entendo, como você, a coisa negociadora.
Esta antologia não deixa de ser ela
mesma uma negociação. Ela traz um espectro plural
(ainda que não liberal), de dissensos, de convivências
de contrários e diferenças que a outra não
traz.
Tem uma presença muito mais forte
de descendentes do concretismo do que na outra.
Tem, tem. Porque eu acho interessantérrima
a relação desta nova poesia com o concretismo.
Fala um pouco sobre isso.
A questão do concretismo hoje é
interessante porque tem a ver com o fim das polêmicas
enquanto estilo de luta pelo poder cultural. A polêmica
é uma forma de criar tensão no campo, de se
estabelecer um espaço no território intelectual.
Não é bem um debate de idéias. É
uma briga pelo poder. Essa briga pelo poder se faz de outras
formas hoje em dia, ela se faz negociando, ela se faz abrindo
canais de comunicação. Antigamente você
tinha que ser contra o concreto para poder publicar em x,
y ou z. Hoje você não precisa mais desse tipo
de parâmetro ou dogma para se afirmar seja contra ou
a favor. O resultado dessa mudança é inesperado:
o concretismo ressurge como um laboratório experimental
e livre para invenção poética não
dogmática. Tem um poeta, por exemplo, que eu lamento
não ter posto. Eu recebi seus textos depois de fechada
a seleção de poetas, lastimo porque achei um
poeta super interessante especialmente porque ele expressa
essa nova postura diante do concretismo. Estou falando da
poesia do Frederico Barbosa. Ele tem um tipo de relação
com o concretismo bastante independente. Ele usa o laboratório
concretista, que é, sem dúvida, importantíssimo,
mas ele mistura áreas proibidas ali dentro.
Tem mais alguém que você lamenta
não ter incluído?
Sim além do Frederico hoje eu incluiria
a Angela Campos, outra poeta que só me chamou atenção
tardiamente. A antologia originalmente era maior. Mas ela
foi cortada no final por problemas de tamanho do volume. Optei
por deixar apenas o que me parecia mais sintomático
deste momento. E esses dois poetas fariam parte desse conjunto.
Chegamos a outro ponto crucial.
Falo de sintoma mesmos. Na mesma pista do concretismo,
veja o caso do Arnaldo Antunes. Arnaldo Antunes é irônico,
ele tem um forte vínculo com o experimentalismo concretista,
talvez seja o que tenha mais, mas, ao mesmo tempo, ele tem
uma liberdade enorme com esse vínculo, ele usa as conquistas
concretistas como um acervo disponível. E muitas vezes
ele usa aquele acervo mais para Titã do que para concreto.
É um traço novo na cena poética brasileira
essa dicção híbrida, em que você
lança mão de um acervo sem compromissos estéticos,
históricos ou ideológicos. O que chama atenção
hoje me dia é, ao contrário, a falta de uma
filiação coerente dos poetas a tendências,
movimentos ou plataformas poéticas. A história
literária sempre foi feita a partir da identificação
de genealogias. Hoje isto está bem mais complexo.
Parece ser uma atitude muito consciente
dos poetas de hoje, não é? Os poetas fazem questão
de mostrar que não têm compromisso com a, com
b, com c. Esta é que é a linguagem, o código.
Vou te trair mesmo. Poema concreto, agora vou te trair e vou
fazer um soneto. E por aí vai. Há uma preocupação
por parte dos poetas em se mostrarem infiéis a genealogias
fixas.
Acho que é isso mesmo. A questão
do soneto é interessante. Porque desde o modernismo
o soneto era uma interdição, era uma forma proibida.
Nem os marginais, que eram tão malcriados ousaram romper
esse tabu. Hoje o poeta pega um soneto e faz uma experiência
visual . Ou então subverte a prosódia do soneto.
Não há mais tabu. Isso me lembra uma colocação
antiga do Lyotard, em que ele dizia que a originalidade estava
se deslocando para o campo das téçnicas de articulação.
Tudo hoje é acervo branco, à espera de ser ressignificado.
A informação está toda à mão.
A pulsão da novidade cede lugar ao prazer da articulação
de elementos às vezes até díspares.
Vamos voltar à questão já
mencionada da política do sintoma. A tua política
é a politica do sintoma. Mas sintoma de quê?
Porque a tua antologia não é uma antologia ecumênica.
Não é como o Pedro Lyra, que faz um recorte
temporal e enfia todo mundo lá. Então tem um
ponto a discutir aí, que é caracterizar o que
ficou de fora do teu olhar seletivo, um olhar negociador,
hibridizante, mas não ecumênico, não demagogicamente
"universal".
Não, minha seleção não
foi nem ecumênica, nem "universal". Há
um partido tomado com clareza. Que também não
é a representação da pluralidade contemporânea.
Por exemplo, um ponto que tem sido levantado na polêmica
sobre a antologia é que o critério de seleção
tinha sido por cotas, por representações de
minorias -- negro, mulher, judeu, gay. etc. Tem muito pouco
disso. Se houve essa preocupação, houve nos
26 Poetas Hoje quando fui procurar a poesia das mulheres,
a poesia negra. Nesta antologia de agora, por exemplo, os
poetas negros não representam o que se poderia definir
como "poesia negra", nem as mulheres escolhidas
se empenham em fazer uma poesia "feminina" ou feminista.
Não há um critério de representatividade,
absolutamente.
Na minha opinião, a grande qualidade
de sua antologia é ter conseguido associar um olhar
profundamente literário, estético, a essa questão
extremamente atual que é a de uma poesia que se dá
como afirmação e problematização
de subjetividades parciais. Isso sem sindicalismos, sem política
de cotas, sem a perspectiva de uma representatividade simplória
do poeta em relação a grupos de qualquer tipo,
minoritários ou não.
A presença subjetiva mais afirmativa
é a gay e se constitui como uma novidade nesta seleção.
Fala dessa questão,. que me interessa
diretamente.
Veja você, as mulheres. Tem poucas mulheres,
tem apenas quatro. Porque as mulheres já conquistaram
certa legitimidade literária além de uma boa
parcela desse mercado. estão dividindo o campo meio
a meio. Fiz um levantamento dessa produção,
assim como o Benedito Nunes havia também feito, e constatei
que metade das pessoas escrevendo e publicando poesia no Brasil
são escritoras mulheres. Não faria portanto
mais sentido colocar mulheres na antologia dentro da lógica
da cota. Escolhi quatro mulheres que trabalhavam as formas
da subjetividade feminina de maneira mais experimental, que
falam de uma experiência mais solta do universo social
feminino. São bem diferentes da poesia identitária
das mulheres das décadas de 60/70. Há vinte
anos atrás você tinha Leila Micolis, Ana Cristina
Cesar, eram linguagens muito diferentes entre si, mas que
afirmavam o feminino até como agressão ou provocação.
As de hoje não, elas já estão numa condição
pós feminista. A mesma coisa também se pode
verificar nos poetas negros. Não há um bias
racial óbvio, embora exista o aproveitamento das referências
míticas e culturais da negritude. Ao passo que a poesia
gay, não marcava nenhum espaço especial na outra
antologia... Na outra antologia só tinha o Piva...
A poesia gay nunca apareceu no Brasil e
por isso essa tua antologia de agora tem uma dimensão
revolucionária no contexto histórico da poesia
brasileira. No Brasil nunca houve antes poesia homoerótica.
Uma coisa que eu acho importante é que
a poesia gay esteja incluída numa antologia que não
é gay. A antologia se pretende como sintoma dos anos
90. O critério não foi de achar que o movimento
gay seja ou deixe de ser vanguarda. Eu não conheço
bem o movimento da poesia gay. O que eu sei é que nos
anos 90 não dá para se considerar o conjunto
da produção poética sem destacar essa
presença. Não estou protegendo os gays. Não
é isso. A poesia gay apareceu na antologia Esses Poetas
por sua inquietação estética e política,
como uma poesia forte, desafiante. Apareceu na minha mesa,
eu não fui buscar por nenhum impulso "politicamente
correto", foi incluída porque é boa poesia.
Mas, por outro lado, não seria possível não
admitir também que o avanço que a atuação
das mulheres na literatura representou nos anos 80, hoje está
mais representado na área da estética gay.
Você acha que está havendo
um silêncio deliberado da crítica quanto a esse
aspecto da antologia ou ainda é cedo para avaliar?
Não está havendo silêncio
algum. Metade da agressão violenta contra a antologia
é uma agressão homofóbica. Não
há silêncio. Se há silêncio, é
um silêncio eloqüente. Omite-se o fato, mas que
ele irrita, irrita. E a irritação aparece num
vocabulário extremamente preconceituoso e moralista
que informa essas críticas. A presença da poesia
gay com destaque na antologia não está sendo
discutida, mas está sendo xingada.
E se pensássemos no oposto? Se passasse
a haver uma tagarelice em relação a essa poesia,
você não tem medo que isso estigmatizaria a antologia?
Quando penso na poesia gay selecionada na antologia
penso em boa literatura, penso no interesse e no alcance de
uma nova experimentação estética. Não
vejo como isso poderia estigmatizar a antologia. Ela é
parte integrante do conjunto de um quadro que pretendi traçar
e não de um guetto político-estético.
Na realidade eu procurava reações ao status
quo. Nesse sentido como apontei na minha introdução,
tentei fazer jus de uma forma mais geral e abrangente à
tres forças que identifiquei na poesia atual. Uma de
permanência, que mostra ainda a vitalidade dos anos
70, como é o caso do Guilherme Zarvos e do sucesso
do CEP 20.000. Outra que tenta negociar ou reagir ao liberalismo
do "vale tudo" que assola o mercado cultural. E
outra, que eu não incluí na antologia porque
não me interessa, que é uma poesia conservadora
política e estéticamente, um exercício
apenas formal, bem feita, de dicção e pouco
nervo criativo. É aquela que se conforma com a bela
literatura.
Para usar os seus termos na introdução
e para a gente encerrar entendendo bem o que ficou de fora
da antologia, você fala numa distinção
entre um pós-modernismo de reação e um
pós-modernismo de oposição. Na sua antologia,
você optou pelo pós-modernismo de oposição.
Sim, tento não recusar a idéia
das possibilidades criativas de um pós-modernismo,
mas de um pós-modernismo de oposição.
Essa distinção é do Andreas Huyssen.
Eu traduzi o texto do Huyssen e o incluí na minha coletânea
sobre Pós -Modernismo e Política, um livro que
organizei exatamente procurando me situar dentro deste momento
pós-moderno, procurando novos caminhos de atuação
e novas formas de produtividade e de crítica num contexto
bastante adverso e cerceado.
Você encontrou na poesia dos anos
90 uma continuidade em relação a essa busca
de um pós-modernismo mais crítico.
Certamente. Pelo menos, foi o que fui procurar
nessa nova poesia.
Mais até do que provavelmente o que
acontece com boa parte da prosa. Mas talvez igual ao cinema,
ao pop em geral.
A preocupação básica é
com o espaço livre que sobra para a criação
original e independente no quadro de uma sociedade de consumo.
Que espaço nos sobra para reagir a uma certa letargia.
Aí a gente volta para uma discussão que foi
mencionada mas não ainda enfatizada aqui, que são
os partidos críticos tomados num trabalho com o texto
literário. Alguns críticos como o Antonio Carlos
Secchin fala em nome dos críticos como um " métier"
. Mas eu me pergunto que metier é esse que aprisiona
a literatura num quadro muito pequeno e paroquial de questões
e preocupações? Eu me lembro que aprendi esse
"métier" na escola, mas nunca me lembro de
ter trabalhado assim. Há um texto que me marcou profundamente
como crítica literária que foi um entrevista
do Bakhtin na Revista Novy Mir, de 1972, ou seja há
quase trinta anos atrás!. Ele dizia, provavelmente
meio que brigando com o formalismo russo : o problema da atual
estagnação da teoria literária é
que ela passa a vida procurando o específico literário
e não percebe a importância radical da literatura
no tecido discursivo de uma época. Porque enquanto
estiver voltada para o próprio umbigo, a crítica
literária não pode avançar. A dimensão
estética da expressão literária é
fundamental, mas não se esgota em si própria.
Ela não é apenas um gozo., ela é mais
que isso. Ela pode ser um tiro. É isso que eu quero
que ela possa ser.
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