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O Homem que Amava Rapazes - e outros ensaios
Denilson Lopes
Entrevista com Denilson Lopes, autor de O
Homem que Amava Rapazes - e outros ensaios (Aeroplano
Editora)
1) Qual é sua formação acadêmica e sua atuação
na Universidade hoje?
Estudei jornalismo na UnB porque gostava de
escrever, mas descobri a pesquisa durante o curso e acabei
emendando um mestrado em literatura brasileira e um doutorado
em sociologia, todos na UnB. Apesar da mudança de área, um
interesse pelas relações entre arte e cultura contemporâneas
se manteve. Na época do doutorado fiquei um tempo em Nova
Iorque e Montreal. Foram experiências importantes na escrita
da minha tese e meu primeiro livro, Nós os Mortos: Melancolia
e Neo-Barroco (RJ, Sette Letras, 1999). Passei um período
curto como recém-doutor na UFRJ, quando apareceu o concurso
para a Faculdade de Comunicação da UnB, onde sou professor
desde 1997 e atualmente coordeno o Programa de Pós-Graduação
em Comunicação. Não imaginava ser professor, mas hoje escrever,
estudar e dar aula são mais do que trabalho, grandes alegrias.
2) O que você diria sobre esse seu novo
livro?
Como terminei de escrever a primeira versão
de O Homem que Amava Rapazes no início de 2001, parece, às
vezes, algo que é parte de mim mas que vai ficando distante...
De qualquer forma, este livro surgiu de uma necessidade de
sobrevivência e de vida. Não posso evitar de dizer. Mais do
que um livro sobre a homossexualidade masculina e o travestimento
na arte contemporânea, especialmente na literatura brasileira,
mas também no cinema, havia uma busca de diálogo. Não quis
escrever um livro para um gueto gay, mas a partir de uma experiência
gay, defender a importância política, estética e ética da
afetividade na multiplicação de narrativas dentro de uma democracia
multicultural..
3) Quais os autores que marcaram seu caminho
intelectual?
Minha primeira paixão intelectual foi Roland
Barthes, que me marca até hoje pelo desejo de me situar na
fronteira entre a crítica e a literatura, no temor da prisão
dos grandes sistemas de pensamento. Também Walter Benjamin
foi outra paixão à primeira leitura pelo estilo fragmentário.
Me senti pequeno herdeiro da longa herança da melancolia de
que Benjamin faz parte. A obra de Silviano Santiago foi outro
encontro decisivo para me posicionar dentro do espaço intelectual
brasileiro contemporâneo, este espaço impuro, de derivas entre
culturas e tempos. David Bowie encarnou o trânsito constante,
a redenção da melancolia pela alegria da máscara. Parece que
há ainda muita carência de grandes pensadores, artistas revolucionários
e idéias redentoras, prefiro os pequenos gestos, as obras
frágeis mas atentas ao seu tempo.
4) A quantas andam os estudos e os trabalhos
teóricos sobre homoerotismo entre nós?
Depois dos trabalhos de orientação mais antropológica
e histórica que apareceram a partir dos anos 70, há uma nova
geração de acadêmicos, também com interesse em cinema, teatro,
literatura, teatro, de que faço parte. Os encontros sobre
Literatura e Homoerotismo que aconteceram na UFF de 1999 a
2001 representam um pouco este esforço ainda disperso em várias
áreas e lugares no Brasil. Espero que a criação no ano passado
da Associação Brasileira de Estudos sobre Homocultura seja
um importante passo para o alargamento de perspectivas, especialmente
a partir do seu primeiro congresso em Vitória, agora em julho.
5) Seu interesse pelo assunto veio de sua
permanência nos Estados Unidos?
Foi um cruzamento, como sempre me acontece
entre um momento existencial e um interesse intelectual. Sem
dúvida, o período nos EUA me introduziu de forma mais forte
não só nos estudos gays e, na então (1996), emergente teoria
quer, mas vindo de Brasília para Nova Iorque, me fez vivenciar
uma possibilidade maior não de experiências, mas de falas
sobre e da homossexualidade. Cheguei mesmo a Ter a ilusão
de que tinha encontrado um porto seguro, uma comunidade, uma
família de semelhantes... Mas certamente, o cruzamento entre
os estudos culturais e os estudos gays nos EUA me deram um
solo político e pragmático mais visível que os nomadismos
pós-estruturalistas.
6) Como nossa academia reage à esta área
de estudos?
Há um silêncio que esconde dois sentimentos
diferentes: o desinteresse mesmo quando há curiosidade, e
há muita; e uma homofobia teórica, num quadro maior de resistência
a todas as perspectivas que não propõem uma visão totalizante
de nossa época.
7) Quais são, na sua opinião, os mais importantes
autores e artistas gays?
É estranho, não saberia dizer assim. Talvez
por que a obra tenha vindo em primeiro lugar, apesar de sempre
Ter me interessado as sutis relações entre uma vida e o que
é feito dela quando se é um artista, um intelectual. Poderia
falar, sem pensar muito, em Oscar Wilde, Proust, Gide e Genet,
mas prefiro falar de meus artistas gays favoritos, à medida
que de um lugar específico fazem um diálogo com o mundo que
os rodeia. Luchino Visconti me traz com insistência a solidão
da busca da beleza. Morrissey me fez ver o ridículo e a delicadeza
de uma persona romântica hoje em dia. Caio Fernando Abreu
me faz persistir na possibilidade do encontro e da delicadeza.
8) Ainda há uma clara discriminação aos
grupos GLS no Brasil?
Há uma sensível mudança, sobretudo a partir
dos anos 70, mas há ainda muito por avançar. O movimento gay
organizado e a visibilidade midiática certamente são fatores
decisivos para uma maior discussão sobre a homofobia e implementação
de estratégias de conquista de direitos.
9) Qual o poder atual de intervenção da
militância gay no Brasil?
Pela pequena dimensão dos mais de 70 grupos
espalhados pelo Brasil, é impressionante o que se tem conseguido,
mas o movimento gay esbarra num limite que ele terá que resolver:
como passar de um discurso de um grupo para atingir o conjunto
da esfera civil, sem perder sua especificidade.
10) Seu texto ensaístico é marcado por traços
autobiográficos e por nuances bastante subjetivas. Como você
vê isso?
Não tenho escolha. Só consigo escrever sobre
algo que tem um sentido existencial e sempre me incomodaram
textos científicos sem sujeito, sem afetividade, descritivos
e assépticos. Apesar de poder ser considerado narcisista,
sempre achei importante explicitar de onde falo e o que penso
calcado na minha experiência como escritor, leitor, professor
e pessoa. Mas creio que cheguei num certo impasse que ainda
não resolvi. Estou cansado um pouco de escrever em primeira
pessoa, gostaria de escrever mais fragmentos poéticos, como
paisagens para contemplação.
11) Você já arriscou algum projeto fora
da academia? Prosa? Poesia? Outros?
Gosto de escrever pra jornal e já fiz muita
poesia ruim, mas creio que me encontrei neste formato do fragmento
poético, talvez como uma forma de conciliar a condição do
professor que fala sobre algo e do artista que sua obra é
sua própria fala.
12) Quem você está lendo agora?
Para um novo projeto sobre o cinema contemporâneo,
estou recuperando uma leitura sobre o tema do sublime: Longino,
Burke, Kant e quero chegar em Lyotard. Li recentemente Cinco
Estações do Amor de João Alminio e Três Elefantes na Ópera
de Rogério Menezes que me interessaram pela possibilidade
de se situarem, de forma bem distinta, em uma narrativa contemporânea
mais direta, mais afetiva. Gostei muito dos poemas em Martelo
de Eucanãa Ferraz. No momento, meus nortes estão na leveza
de Calvino, no sublime banal de Bandeira, na espiritualidade
de Kieslowski, na delicadeza de Wong Kar Wai, na paisagem
feliz de Bachelard, não no grotesco, no abjeto, na estetização
da violência, nem em excessos cerebrais. Claro, com trilha
sonora: Radiohead, Air, Spiritualized e Moby.
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