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Impressões de Viagem - CPC, vanguarda
e desbunde
Heloisa Buarque de Hollanda
A insolência começa pelo título.
Ele promete um trabalho impressionista e anuncia uma viagem
que — os remanescentes dos anos 60 não duvidam
— tem dois sentidos: o próprio e o figurado,
de sentir-se sob o efeito de drogas. Ora, espera-se de uma
tese acadêmica que ela seja objetiva, séria e
em geral chata, até porque se espalhou nos meios universitários
brasileiros a convicção de que só os
chatos são sérios.
A tese da professora Heloísa Buarque
de Hollanda, aprovada com distinção e publicada
em livro, não é nada disso. Ainda tem a gentileza
de ser inteligente e não fazer ninguém, ao lê-la,
sentir-se burro. Ela vale principalmente pela audácia
do método, que faz a autora misturar-se com o objeto
que analisa, a ponto de abrir o primeiro capítulo com
um indecoroso ("Eu me lembro...") e terminar o último
com um devaneio: "Fico pensando..."
Ao investigar três momentos recentes
da produção cultural brasileira — a participação
engajada dos Centros Populares de Cultura (os CPCs de 1962,63
e 64), a explosão anárquica do tropicalismo
(1967/68) e a arte marginal do início dos anos 70 —,
o trabalho de Heloísa acaba discutindo atitudes intelectuais
que ainda alimentam os debates de hoje. O artista deve estar
"ao lado do povo", cortejando-o, como faziam os
cepecistas, ou deve agredi-lo, como pregavam os tropicalistas;
ou, nem uma coisa nem outra, como a contracultura, que não
pretende nada a não ser a descrença? A autora
não pretende arrumar, mas desarrumar estas questões.
Assim, ela está mais próxima da última
do que das outras posições.
"A tese é, como eu, meio esquisita",
justifica-se a doutora em Literatura Brasi leira pela Faculdade
de Letras da Universidade Federal do Rio de Janeiro, doutorado
conseguido exatamente com este livro. Como esquisitas, ela
classifica certas ousadias pedagógicas — "uma
falta de respeito permanente" — que a levaram,
em 1969, a dar um curso sobre Malandragem e outro sobre Moda
(o trabalho de campo dos alunos era explorar butiques da Zona
Sul para detectar tendências e modismos).
"Tematizar o cotidiano do aluno"
é, para ela, a melhor maneira de fazer política
na universidade, que vive de temas aéreos e abstratos,
mesmo quando pensa estar agindo politicamente. "Os assuntos
do dia-a-dia do aluno são mais políticos do
que a Revolução Proletária", garante
Heloísa.
Impressões de Viagem é
o resultado desse interesse. O livro contém temas que
a universidade brasileira ainda não absorveu ou está
absorvendo com dificuldade. O último capítulo,
por exemplo, introduz finalmente na universidade a cultura
do desbunde. Foi uma arte produzida nos anos 70, debaixo do
sufoco do AI-5 e tentando ficar à margem (daí
também o nome de marginal ou alternativa) dos circuitos
convencionais: filmes em Super-8, poesia impressa em mimeógrafos
e distribuída de mão em mão, grupos teatrais
semiamadores.
Apesar do destaque com que aparece no livro,
a cultura do desbunde produziu mais atitudes do que obras
realmente importantes. Essa tese, desbundada, é a sua
melhor obra.
Zuenir Ventura
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