A literatura latino-americana do século XXI

Org. Beatriz Resende


McOndo é aqui                             13/10/2005

a Bruno Dorigatti

Há alguma relação entre as obras de escritores contemporâneos argentinos, chilenos, colombianos, cubanos e brasileiros? É o que pretende discutir o seminário A Literatura Latino-Americana do século XXI, que acontece a partir de terça-feira, dia 18, no Centro Cultural do Banco do Brasil, no Rio de Janeiro. O evento trará nomes como o argentino César Aira, o colombiano Efraim Medina Reyes, o chileno Alberto Fuguet, o cubano Reinaldo Montero, além dos brasileiros Sérgio Sant'Anna, Joca Reiners Terron, Luiz Ruffato, Santiago Nazarian e dos críticos Raul Antelo, Eduardo Coutinho e Paloma Vidal.

Para Beatriz Resende, organizadora do seminário, a nova prosa latina abandona o realismo fantástico e aprofunda a interposição de gêneros. "Os limites entre ficção, autobiografia e ensaio nunca estiveram tão tênues", afirma. Com o seminário, será publicada uma coletânea que reúne ficção e crítica, em espanhol e português. Aira teve seu conto "Mil gotas", de 2003, traduzido para o português. Sant'Anna, em conto inédito, trata de um autor envolvido com sua obra. Fuguet desenvolve a idéia do McOndo, um mundo que não seria mais a Macondo inventada por García Márquez, e sim um lugar infestado de McDonald´s, Macintosh e condomínios, em um misto de ensaio e ficção. Ruffato apresenta um capítulo/conto do ainda inédito terceiro volume do seu Inferno provisório e Joca Terron, um fragmento da novela inédita O espaço sideral no estômago. Há ainda contos inéditos de Santiago Nazarian, Efraim Medina Reyes e Reinaldo Montero.

Na parte dedicada à crítica, Raul Antelo nos fala da obra de Aira, enquanto Eduardo Coutinho desenvolve a origem e os significados do termo "América Latina". Paloma Vidal fala um pouco sobre as novas gerações de escritores chilenos e brasileiros. Livro e seminário compõem assim uma boa introdução à prosa latino-americana deste novo século. Leia a entrevista com Beatriz Resende abaixo.

Como definir a ficção latino-americana do século XXI?

Beatriz Resende. Ela se caracteriza, neste momento, sobretudo pela diversidade. As propostas são formalmente diferenciadas e, quase sempre, interessadas em questionar os gêneros e a própria noção de ficção como suporte. Os limites entre ficção, autobiografia e ensaio nunca estiveram tão tênues, resultando numa literatura que interpela fortemente o leitor. Há também uma marca política forte, mas bem diferente da que se evidenciava nos anos 60/70. Há uma politização do texto que, no entanto, não passa pela veiculação de mensagens ideológicas. Destacaria também o profundo interesse pelo presente, pelo imediato, pelo aqui e agora de que fala o narrador.

Apesar da maior comunicação entre os países da América Latina, proporcionada pelos meios eletrônicos, enfrentamos obstáculos para encontrar as obras de escritores vizinhos nas livrarias, especialmente traduções de escritores latino-americanos contemporâneos. O que pode ser feito para incrementar a troca entre as literaturas do continente?

BR. Deveria haver uma rediscussão sobre importação de livros, com revisão das tarifas. No caso do Brasil, a falta de política de apoio ao livro e à publicação e o total descaso com as bibliotecas que vivemos dificulta não só a circulação interna como o intercâmbio. A questão das bibliotecas, hoje, é muito séria. Quem nunca esteve com livro nas mãos, não pegou emprestado, não tem interesse em comprar um livro, em tê-lo para si? No caso da literatura brasileira, o incentivo a traduções é urgente. Somos nós que falamos outra língua. Se não incentivarmos a tradução para o espanhol, fica difícil divulgar a nova literatura no resto da América Latina.

O que definiu a escolha de uma visão prospectiva do século que está começando?

BR. Quero que o público fique conhecendo o que está sendo criado hoje na literatura brasileira e na do resto da América Latina. Gostaria que entrasse em debate a produção literária que se seguiu à de grandes monstros sagrados como García Márquez, Borges, Guimarães Rosa. Que se conheça a ficção criada depois do Modernismo.

Onde estão as diferenças e as semelhanças entre a literatura produzida em meados do século XX e a que vem sendo produzida agora?

BR. Acho que a grande mudança é a exaustão do real maravilhoso. A literatura contemporânea é mais próxima do cotidiano, mais pessoalizada. Nada disso é melhor ou pior, são caminhos que vão seguindo adiante. Os grandes temas passam pela inserção das nações e dos indivíduos na sociedade globalizada. Começo a perceber a recorrência do trágico como forte expressão da literatura atual.

Quais critérios orientaram a escolha dos participantes do seminário?

BR. Procuramos escolher autores jovens, atualíssimos, mas que já tivessem ao menos uma obra traduzida no Brasil, de forma a que o público possa acompanhar melhor o debate.

Nunca se editou e publicou tanto, em um tempo em que as vendas têm diminuído e os concorrentes à leitura (televisão, games, internet), aumentado. Como encarar essa contradição?

BR. Não acho que seja bem uma contradição. Quanto mais acesso à cultura se tem, mais se reivindica cultura, saber, eventos. Uma coisa puxa a outra. Quando o público é informado, solicitado, responde ao apelo. Quando vai ao cinema, tem vontade de ir também ao teatro e ler um livro. O diabo é quando o cidadão tem que riscar a cultura do seu horizonte de consumo, de programação de vida. Quando deixa de ir ao cinema, deixa de participar também de outras atividades culturais. Quando não lê, não pensa em ir ao teatro, e assim por diante. Além disso, a produção cultural oferecida é muito diversificada seja na literatura, no cinema, na música, no teatro.

Publicado originalmente no Portal Literal