| Moko no Brasil
Alberto Renault
Hermano Vianna
"Se fosse um filme": o narrador-personagem de Moko no Brasil, várias vezes, imagina que sua história poderia estar sendo projetada na tela dos cinemas. Propõe movimentos de câmera, cortes de edição, para tornar mais claro o que quer dizer, ou para dizer outras coisas (fingindo que elas não podem ser ditas pela escrita). Ao ler, eu me peguei – também várias vezes – fazendo outro exercício de imaginação: este livro daria uma excelente história em quadrinhos japonesa, um mangá, desses que a gente lê de trás para frente. Ou: este livro na verdade é uma tese de antropologia, uma "descrição densa" (como Clifford Geertz define a boa narrativa antropológica – e nisso a descrição de uma festa de aniversário infantil é uma obra-prima de densidade, como se tudo que fosse importante no Brasil e no Japão estivesse ali...), uma etnografia de uma certa tribo planetária, absolutamente cosmopolita, ao mesmo tempo apegada e desapegada diante das diferenças/semelhanças culturais (o adesivo da Riff, a cerveja Kirin...) que povoam o mundo, num jogo que torna o mundo mais "interessante".
Mas que mania nossa é esta de fazer uma coisa – neste meu caso: ler – imaginando que é outra, ou que deveria ter como complemento algo que está faltando? Que mania nossa é esta de viver imaginando outra vida que não é a que temos agora?
Em Moko no Brasil não falta nada. É a descrição minuciosa, apesar do condicional (se fosse...), da ascensão e queda de um paraíso particular, o melhor dos mundos possíveis naquela situação e para aquelas pessoas, onde todos os desejos (enquanto duram) estão/são satisfeitos. Por isso é um livro tão triste, demonstrando talvez – contra nosso marketing cultural – que Brasil e Japão (tão distantes) são os países mais tristes do mundo.
Tristeza aqui não é a ausência de alegria, mas aquilo que lá no fundo da alegria nos faz perceber que o que é bom sempre acaba, e é bom porque vai acabar. Não por reação externa, ou por um problema/vacilo de percurso qualquer: mas por ser intrínseco em tudo de bom a sua finitude. Como nos primeiros momentos de uma paixão: estamos felicíssimos por aquilo estar acontecendo, mas sabemos (lá no fundo...) que não vamos ficar apaixonados daquele jeito a vida inteira, e isso já nos deixa tristes por antecipação. E não adianta dizer, para nosso consolo, que a paixão se transforma em companheirismo, amizade, algo menos inconstante – ou que devemos lutar para a paixão não terminar: há um "fogo" que se acaba, uma graça que não permanece, pois não seria paixão verdadeira se permanecesse (e se permanecesse, ninguém sobreviveria a tal paixão infinita).
Os apaixonados de Moko no Brasil são totalmente pós-tudo-isso, gente que apesar de muito jovem já experimentou todos os fogos, mesmo o mais experimental (ou, mesmo tendo chegado atrasada para a experimentação do experimental, sentiu a onda e já se curou da ressaca). Como os trabalhos dos artistas que são comentados em "notas de meio de página" (recurso já típico de Alberto Renault) em muitos momentos do livro: a melhor arte de hoje é, de certo modo, sempre citação do experimental vitorioso. Ninguém – em nenhuma exposição – vai se chocar com nada.
Se fosse um filme seria como Dolce Vita 2, O Eterno Retorno. Estamos condenados a reencenar aquela cena da festa, quando a loura quer fazer um strip-tease e os outros convidados recusam a cena entediados: "não novamente, todo mundo aqui já viu você nua"? Não, falo de outra cena, a final, o anúncio de uma segunda ingenuidade, uma felicidade – como nos ensina G.H., de Clarice Lispector (nosso melhor mestre zen?) – totalmente verdadeira, pois desprovida de esperança: "até agora o que a esperança queria em mim era apenas escamotear a atualidade. Mas eu quero muito mais que isto: quero encontrar a redenção no hoje, no já, na realidade que está sendo, e não na promessa, quero encontrar a alegria neste instante".
Moko, Tê, LF, Ryû: todos belos e puros (apesar de tantos pecados, cometidos por quem não tem verdadeiramente a menor idéia do que vem a ser um pecado) como a menina-anjo que aparece para um Marcelo Mastroiani arrasado no final do filme de Fellini. E quando percebemos que eles inventaram seu paraíso, já ficamos alegremente tristes, sabendo que aquilo tem que acabar. Repito (sem estragar a surpresa da leitura): não acaba por erros cometidos, ou pelo ataque de quem não suporta ver felicidade nos outros. Sabemos que vai acabar porque acaba, e pronto. E ninguém vai morrer por isso. Vai partir para outra, mesmo com a convicção de que aquela perfeição que acaba de acabar talvez nunca venha a ser vivida igual, e com tanta intensidade – e paz. Sem nenhum drama (e gente dramática, que só sabe ser apegada, é tão chata, não é?)
O que mais pode espantar, na narrativa de Moko no Brasil, na psicologia de suas personagens, é talvez essa ausência de drama (que não deve ser confundida com um "tanto faz" – é até o contrário do tanto faz, pois todo mundo vive suas escolhas até o fim). Ninguém se esforça para eternizar o paraíso, para ter aquilo para sempre. Moko consciente do fim, sem mover um dedo para mudar o final: "Nunca mais nada daquilo, porém ela estava alegre". Foi assim que me senti ao terminar o livro.
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