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O Mundo em Comunicação
Silvana Gontijo
Apresentação - Zuenir Ventura
No começo não era o verbo - eram o gesto, a expressão facial e
corporal, o tato, a visão, o olfato. Essa é uma das primeiras lições que esse
livro nos dá, ensinando que "muito antes de existir uma linguagem estruturada ou
mesmo sons com algum significado, havia comunicação entre os homens". Os
primeiros sistemas de linguagem criados prescindiam do aparelho vocal. Não foi
preciso esperar o aparecimento de um código articulado, uma gramática e um
léxico para que pudéssemos transmitir e receber mensagens. Todo o nosso corpo
"fala", comunica-se, mesmo hoje, tendo ao nosso alcance as mais modernas
tecnologias. Eu me comunico, logo existo. Eu falo e escrevo, logo sou
humano.
É assim, como fenômeno de comunicação, um processo tão simples e
tão complexo, tão antigo e tão moderno, que Silvana Gontijo conta um pouco da
história da Humanidade e da evolução do Homem, do mundo e do Brasil - do
Big-Bang à internet, da pré-História aos nossos tempos pós-modernos, dos
hieróglifos aos bytes, da prensa ao computador, da arte rupestre à cobertura
televisiva da Guerra do Golfo, da fumaça como mensagem até as ondas invisíveis,
que transmitem o som, as palavras e as imagens. O seu olhar é semiológico. Mais
do que os significados, os significantes: os sinais, os signos, em uma palavra,
a linguagem. Mais do que os fatos, sua interpretação, sua leitura.
Há várias maneiras, por exemplo, de contar e recontar a
descoberta da América e do Brasil. Ela prefere abordar o relato dos feitos, como
se estivesse fazendo uma análise de texto jornalístico: "Colombo foi tão pródigo
em elogios que muitas vezes construiu uma realidade paralela. Se na carta de
Pero Vaz de Caminha aos reis de Portugal fica evidente uma busca de isenção,
Colombo, ao contrário, não hesitou em carregar nas cores das primeiras
impressões sobre o Mundo Novo".
É curioso perceber como essas duas crônicas inaugurais já
continham os elementos da comunicação moderna: a retórica de convencimento e
persuasão, a mensagem cheia de intenções. Para ilustrar as conseqüências da
chegada da família imperial ao Brasil, em 1808, apropriando-se compulsoriamente
das casas e moradias, a autora foi buscar nas suas pesquisas o registro de que
"o primeiro anúncio publicado na imprensa brasileira" aproveitava a crise no
mercado imobiliário: "Quem quiser comprar uma morada de casas de sobrado, com
frente para Santa Rita, fale com Ana Joaquina da Silva, que mora nas mesmas
casas..."
O mundo em comunicação desmoraliza a visão apocalíptica de que
uma tecnologia decreta a morte da anterior - o medo infundado de que a
fotografia acabaria com a pintura, que o cinema enterraria o teatro, que a
televisão exterminaria o livro. Nada disso. Em lugar da ameaça de morte, o que o
novo traz é a exigência de que o antigo se aperfeiçoe. A televisão não acabou
com o jornalismo escrito, mas exigiu que este agilizasse suas técnicas de
narração, que modernizasse suas imagens, que privilegiasse enfim a análise e a
reflexão, em vez do reflexo.
Até os primitivos meios de comunicação não desapareceram de todo.
Citando Luiz Edmundo, o grande cronista carioca da virada do século XIX para o
XX, a autora mostra como os sinos do campanário de São Francisco eram "uma
espécie de gazeta de bronze" que ia espalhando, "de minuto a minuto, os mais
variados e polpudos informes sobre o que ia aos poucos ocorrendo até de profano
na urbes colonial".
Os sinos não servem mais como gazeta, mas nem por isso foram
jogados fora. Continuam informando as horas ou convocando os fiéis para a missa.
Da mesma maneira, os moleques de recado, responsáveis pelo leva-e-traz das
famílias abastadas na Colônia, evoluíram e se transformaram nos office-boys de
hoje. Quando descreve os primeiros, Silvana parece estar falando também um pouco
das funções dos segundos: "...viviam de um lado para outro das cidades e, além
de entregarem as missivas, serviam como cronistas e espiões, narrando aqui e ali
o que presenciavam em suas andanças".
A velocidade com que as tecnologias de comunicação se
desenvolveram e são postas em circulação chega a aturdir. Um bom exemplo é o que
está no livro: "O impacto da prensa demorou 200 anos para ser sentido, a
televisão demorou apenas 10 anos para estar em 95% dos lares norte-americanos".
E a tendência é a aceleração das descobertas e a diminuição da distância entre a
invenção e seu lançamento no mercado.
O inquietante, porém, talvez não seja nem isso, pelo menos
enquanto o homem continuar dominando a tecnologia de comunicação. O que
preocupa, preocupa inclusive Silvana, é o que ela chama de "tirania da
informação" e que se poderia classificar também como "censura por excesso" e não
mais por corte ou eliminação, ou seja, o risco da superabundância: esse
bombardeio diário de informações, com umas anulando as outras e todas
transformando a comunicação em seu contrário, o ruído, a entropia.
"Empanturrados de imagens, valores e conceitos, ruminamos
entediados nossa incapacidade de digeri-los", adverte Silvana, que teme um
futuro em que a gente acabe vivendo a "obesidade mórbida intelectual de uma
sociedade extremamente competitiva, que cada dia mais valoriza não o que somos,
nem o que temos, mas o que parecemos ser ou ter".
Qual a solução? Temos a angústia, a urgência e a necessidade, mas
não ainda a saída. Como diz a autora, finalizando o livro, "falta descobrir quem
vai nos dar o modelo a seguir e com qual intenção".
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