| Olho Frenetico
Mauro Santa Cecília
O olhar frenético de Mauro Sta Cecília
resenha publicada no site Zona
Cultural
por Adriana Campos
Reunindo poesias e letras de músicas,
o livro Olho Frenético, lançado pela Aeroplano
Editora (48 páginas, R$ 20), concentra a riqueza poética
de parte da obra de seu autor, Mauro Sta. Cecília,
que desde o final da década de 1990 figura como um
dos maiores compositores do cenário pop/rock brasileiro.
Após ter publicado A Todo o Transe (Editora Sete Letras),
seu primeiro livro de poesias, em 1997, contendo em sua essência
as influências dos poetas Rimbaud, Verlaine e Baudelaire,
Mauro escreve um ano depois a letra de Por Você (“por
você eu dançaria tango no teto, eu limparia os
trilhos do metrô, eu iria a pé do Rio a Salvador...”),
poema musicado por Frejat e Maurício Barros para o
álbum Puro Êxtase, do Barão Vermelho.
Sucesso do mercado fonográfico nacional, a canção
é na verdade um hino romântico e contemporâneo.
Com sua primeira composição no
disco de um dos expoentes do Rock Brasil, Mauro inicia uma
brilhante trajetória como letrista e passa a ter músicas
gravadas por George Israel, do Kid Abelha, Luiza Possi, Jota
Quest e Sideral. Mas foi Roberto Frejat que se firmou como
o parceiro mais freqüente. A parceria rendeu inúmeras
canções de sucesso, como Amor pra Recomeçar
e Sobre Nós 2 e o Resto do Mundo, da carreira solo
de Frejat. Para o novo CD do Barão Vermelho, a dupla
compôs sete das 11 faixas do disco ao lado dos integrantes
da banda e de outros autores.
Em Olho Frenético, estão reunidas
muitas dessas letras de músicas, poesias líricas
e desconcertantes por sua magnitude, inclusive Por Você.
O livro conta ainda com depoimentos de Arthur Dapieve, Fausto
Fawcett, Tárik de Souza e Dulce Quental. Sobre sua
publicação, Mauro analisa: “Acho que é
uma evolução do meu trabalho como poeta”.
Autor que tem por ídolos Chico Buarque, Bob Dylan,
Caetano Veloso, Carlos Drummond de Andrade e Chacal, declara
ser admirador da geração BRock: “Sou da
geração do Cazuza, Arnaldo Antunes e Renato
Russo. A minha poesia tem exatamente a referência dessa
geração. As minhas referências não
são unicamente literárias. Não são
unicamente de poesia e letra, de poesia e ficção.
A minha influência também vem do teatro, principalmente
da televisão, do cinema e da própria música”.
Para o teatro escreveu o roteiro da peça
O Rei dos Escombros, encenada em 2003 sob a direção
de Moacir Chaves, além de já ter feito ao longo
de sua carreira como escritor roteiros de videoclipes (Sandra
de Sá e Araketu) e institucionais.
Graduado em Direito e com mestrado em Literatura,
Mauro percorreu um longo caminho até se consagrar como
letrista. Fez parte da equipe de trabalho da diretora Bia
Lessa e foi redator e assessor de análise política
no Consulado do Japão. “Na verdade sou poeta
e letrista. Sou o que estou fazendo hoje. Antes eu estava
errando pela vida”, confessa Mauro ao falar sobre seu
passado. Em 1994, já obteve o reconhecimento por sua
verve poética ganhando o Prêmio Literário
Stanislaw Ponte Preta, em um concurso da Secretaria Municipal
de Cultura do Rio de Janeiro, na categoria Poesia Visual,
com o poema Na Madruga do Rio, publicado no livro A Todo o
Transe.
Ímpar em sua simplicidade, Mauro nunca
emprega adjetivos para definir seu trabalho, impregnado de
talento e eficaz inventividade, como os poemas e as letras
de música reunidos nesse lançamento, que não
traduzem apenas o espírito romanesco do autor. O leitor
também se depara com poemas que retratam a estética
urbana, caótica. Com Olho Frenético, Mauro nos
desperta do cômodo transe ocidental, outrora aflitivo,
mas já indolor e costumaz, com seus versos ácidos,
nos impelindo a ter coragem de enfrentar e não mais
espreitar a crua realidade. Desferindo um olhar frenético
despido de reticências, sua poesia rascante e direta
vem carregada de um impulso pungente, elétrico, que
nos faz refletir e dissolver enigmas intrínsecos. Mauro
Sta. Cecília é um poeta do cotidiano urbano
e um romântico contemporâneo. Sua poesia é
intensa e intrépida, que instiga e rompe com o senso
comum. Ler seus versos se converge numa profícua experiência
que nos convida a exorcizar o eu-autômato e a legitimar
a nossa existência. É uma leitura imperdível.
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