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Sonata para Pandemônio
Elisabeth Veiga
Elisabeth Veiga é carioca, poeta e pintora.
Vive em Copacabana, cercada de artes e lembranças do passado. Com formação em Filosofia,
publica seu terceiro livro, "Sonata para Pandemônio", da Editora Aeroplano.
1. Existe um intervalo grande entre a publicação dos seus
livros. Por quê?
Produzo muito. Algumas dessas produções ficam, outras não. E
trabalho com as que ficam. A cada vez que mexo em um poema, ele muda. Na
verdade, este livro se encontrava quase pronto há algum tempo.
2. Com "Sonata para Pandemônio", recentemente publicado
pela Editora Aeroplano, você sentiu mudanças em relação aos livros anteriores?
Há mudanças sim. Existem poetas, como João Cabral, que não mudam
nunca. Já outros, como Carlos Drummond de Andrade, incessantemente se renovam.
Acho que me enquadro no segundo caso.
3. Em seu processo de produção, a criação vem de um fluxo
ou por fragmentos?
Das duas formas. E posteriormente ainda trabalho o texto, em
momentos diferentes. Às vezes não gosto de um poema em determinado instante e
depois sim.
4. Ser considerada uma das mais destacadas poetas da
autalidade traz alguma obrigação, algum um peso?
Não me vejo assim. Venho de uma família de poetas. Recentemente
descobri que minha grande afinidade na poesia brasileira é com Mário Quintana.
Eu poderia ter colocado até um verso dele em meu livro. Acho que todo o livro de
arte é também um "documento humano", na expressão de Carpeaux. A poesia não pode
ser é só documento, ou não será poesia. Mas se ela não for um depoimento
pessoal, vira um jogo, uma brincadeira. O que também é válido. Mas acho que, no
fundo, todo poeta dá seu depoimento pessoal, inclusive João
Cabral.
5. Não adotar grupos e estéticas padronizadas é opcional
ou conseqüente?
Não me preocupo com esse tipo de coisa. Isso já não me incomoda
mais. Escrevo porque gosto e preciso.
6. Como você vê o aspecto panorâmico da poesia
brasileira, na atualidade?
A minha posição em relação a isso está nos poemas "Diferenças" e
"Lirismos confesisonal", do livro. Aliás, o título desse segundo foi feito a
partir de uma entrevista do João Cabral, onde ele abominou qualquer lirismo
confessional.Hoje, o que se vê é uma diversidade de estilos e tendências, o que
acho ótimo e mais compatível com a liberdade de criar.
7. E a escrita em geral?
Cada vez mais, leio menos. Mas, o que gosto mesmo de ler são
ensaios e poesias. Não seria nunca uma boa crítica de romances e contos. Li
muita literatura portuguesa, principalmente Eça de Queiroz e Camilo Castelo
Branco. Meu avô paterno era português. Dos brasileiros, gosto muito de Clarice
Lispector e dos contos de Guimarães Rosa.
8. Há incentivo para novas produções literárias no
Brasil?
Tenho a impressão que, nos anos 90, surgiu um entusiasmo pela
poesia, que não sei classificar. Talvez pela quantidade e qualidade de eventos
literários, declamações, publicações. Há quase uma multidão de poetas "novos" e
muitos, muitos grupos fazendo declamações. Além jornais e editoras que conseguem
sobreviver publicando quase que só poesia, como o "Panorama".
9. O que você quis dizer com a auto-epígrafe do livro?
É uma tentavida de "explicar" o livro. Resumi-lo. Defini-lo.
"Pandemônio" não é cada poema isolado, mas o contraste, a dicionância do
conjunto: dicionância entre os poemas e também entre as seis partes do livro.
10. A palavra "Pandemônio" foi usada pelo poeta inglês
Milton, para designar a corte das trevas. Mas significa também tumulto,
desordem. Em que sentido você usou essa palavra? Não tem
nada a ver com a concepção de Milton. Significa tumulto. Esse livro, de uma
certa maneira, é a organização do tumulto. É o produto final de uma organização
da desordem, mas, paradoxalmente, a aproximação de contrastes parece criar um
tumulto ainda maior. 11. "Sonata para Pandemônio" pode ser
considerado uma continuidade dos seus livros anteriores?
Pode ser e é. É a continuação dos outros dois. Na verdade, o
poeta, mesmo se renovando, está sempre escrevendo seu único livro, e quando o
último é públicado é como se os outros deixassem de existir.
12. Você brinca com o poema. Com a musicalidade, cheiros,
formas, nomes. Constrói e desconstrói. A poesia é concreta ou
abstrata?
A imagística é concreta, mas expressa sempre uma reflexão, ou
emoção ou sensação. Mário Quintana fazia isso e é aí que reside minha semelhança
com ele. Ë uma revivência da infância, uma espécie de brincadeira que remonta a
infância. Meu pai tinha animais silvestres no quintal da casa em que morávamos,
na rua Rainha Elizabeth, 440. Veja aquela foto dele dando mamadeira a um filhote
de urso. Havia sagüis, garças, cotias, vários bichos domésticos e silvestres.
Teve até um filhote de jacaré que fugiu. Mas, o próprio Aristóteles, em algum
contexto, disse que "o poema é um animal". 13. Isso
tem a ver com o poema "A lógica dos mágicos", logo no início do livro, que evoca
um universo circense?
É a infância novamente, com os bichos de casa, dos circos, e as
brincadeiras de acrobacias. Eu fazia malabarismos no balanço, com um maiô azul
de sainha e uma toalha amarrada no pescoço, feito capa, de ponta-cabeça, presa
pelos joelhos ou tornozelos.
14. Como e quando foi seu primeiro contato com a
poesia?
Foi aos seis ou sete anos. Naquela época era comum as pessoas
fazerem cursos para ser declamadores profissionais. Meu pai me levou a casa de
uma tia, a um sarau, e vi Margarida Lopes de Almeida declamando. O que mais me
impressionou foi a declamação de "Nega Fulô, do Jorge de Lima. Fiquei
deslumbrada com a musicalidade mágica das palavras, que eu nem entendia direito.
Meu pai brincava com as palavras, e trabalhava com os números. Herdei dele o
gosto do ludismo com palavras. Já da minha mãe veio o talento para as artes
plásticas. Mas eles todos adoravam declamar também.
15. O nascimento de mais um
livro pode ser visto como um veículo que ajuda a expressar os "pandemônios"
internos?
Claro. Senão o poema não brotaria de dentro. Mas, como há um
intervalo de tempo vivido entre cada poema, o "pandemônio" seria pelos vivido
todos ao mesmo tempo. Então, o tumulto seria tal que eu não poderia nem tê-los
escrito.
16. Você trabalha muito com os temas "amor" e "morte".
Isso é proposital?
Amor e morte são a essência da vida humana, e também a amizade.
Ninguém celebrou a amizade em verso melhor do que Drummond, para Cândido
Portinari, Manoel Bandeira, Mário de Andrade. Isso me incentivou a escrever a
parte entitulada "Retratos" de "A paixão em claro". Em "Sonata para Pandemônio"
já é um pouco diferente.
Entrevista concedida a Fábio Fabretti em 16/ 01/ 2003
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