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70/80 Cultura em Trânsito - da repressão
à abertura
Heloisa Buarque de Hollanda, Zuenir
Ventura e Elio Gaspari
Entrevista
(entrevista realizada pelo site Submarino)
1) O grande propósito do livro "Cultura
em Trânsito", por seus artigos, ensaios e entrevistas
de época, é levar seu leitor a uma intensa vivência
crítica do que aconteceu na política e na cultura
brasileira do anos 70/80. Por que é tão importante
para o leitor de hoje conhecer com intimidade essa passagem
de nossa história recente?
Quando eu e Zuenir decidimos abrir nossas velhas
gavetas de papéis e publicar esse material que cobre
o caminho entre o sufoco da repressão que caracterizou
nossa experiência como produtores culturais pós
AI5 e a desconfiança gerada nos primeiros momentos
da anistia e da abertura , na realidade estávamos pensando
em trazer um registro d época, temperado pelo trabalho
feito no calor da hora, do que foi nosso lento e inseguro
aprendizado democrático. Achamos que seria "pedagógico"
publicar isso agora...
2) No início do livro, afirma-se
que para o retorno à democracia, "o problema dos
militares era a tortura". Qual o problema mais grave
do sistema de poder vigente no Brasil, atualmente?
Olha, você é danado! Não
foi a toa que chamamos o Elio Gaspari pra escrever o artigo
de abertura do livro, o único artigo "não
de época", escrito hoje, ou seja, com a preocupação
de trazer para hoje as questões que nos inquietavam
nos famosos anos de chumbo. E o Elio fez isso brilhantemente.
A metáfora do camaleão para mim é definitiva.
Nosso maior problema é o enorme investimento camaleônico
em mudanças que não alteram as relações
de força entre classes, rendas & sistemas representativos.
3) Em 74, Glauber Rocha, citado em "Cultura
em Trânsito" por uma declaração extremamente
polêmica, dizia que "os militares são os
legítimos representantes do povo". Lembrando a
afirmativa do grande cineasta, como devemos compreendê-la,
agora? Aliás, vale perguntar: em nossa sociedade, no
presente momento histórico, existe algum partido ou
algum setor com legitimidade para se arvorar como representante
do povo?
Mesmo fazendo um esforço enorme e movida
por um desejo igualmente enorme de responder afirmativamente,
vejo que não.
4) Em muitos de seus artigos, ensaios e
livros você sempre assegurou que a década de
70 não foi uma década perdida para a cultura
brasileira. Assim, negou o conceito de "vazio cultural"
então vigente. Criou, inclusive, a expressão
"vitalidade do silêncio", ao abordar a produção
dos artistas de época, como resposta à situação
opressiva da cultura sob o regime militar. E a década
de 90? Será que se perdeu? Ou teve também sua
vitalidade?
Como uma crítica da cultura obsessivamente
otimista, nunca acredito em gerações desvitalizadas.
A década de 90 foi uma década sofrida sem duvida
pelo desemprego, pela AIDS, pela instabilidade econômica,
por graves descrenças políticas mas que aprendeu
duas palavras que ainda não renderam tudo o que renderão.
São elas: articulação e negociação.
5) E por falarmos em década de 90,
não lhe parece que, em termos culturais, ainda permanecemos
nesse tempo passado? Ou você já percebe alguma
produção de cultura em trânsito para o
século XXI?
Percebo com a maior clareza. E é o investimento
no lado híbrido das competências culturais e
nacionais. Acho que começamos a praticar com extrema
habilidade criativa formas culturais locais capazes de dialogar
com o mercado mais global da cultura, e vejo também
sinais desse mesmo processo em curso entre segmentos sociais
e mercados culturais, até hoje pelo menos, aparentemente
excludentes.
6) Num país com tamanho índice
de população excluída da história
e altas taxas de analfabetismo, que sentido ou importância
tem tomarmos como "cultura brasileira" uma produção
artística de abrangência tão ínfima
como a de certos setores intelectualizados da classe média
de nossos grandes centros urbanos? Será essa situação
ainda uma "tragédia cultural", conforme alertava
Oduvaldo Vianna Filho, nas suas entrevistas, pouco antes de
morrer, em 74?
Acabo de fazer uma antologia de poetas dos
anos 90 e minha maior e feliz surpresa foi descobrir a intensidade
e a potência da produção cultural e editorial
nas favelas e na periferia carioca e paulista. É claro
que isso é ainda um sintoma tímido e que não
pode ser considerado nem uma tendência forte do nosso
cenário cultural, nem uma saída visível
para a desigualdade que persiste na distribuição
do acesso e da produção culturais no Brasil.
Mas esse sintoma eu não me lembro de ter identificado
nos 70, época em que arte e literatura, ainda que super
interessante e política, trazia a marca fortíssima
e única da classe média universitária
de zona sul.
7) Como você observa e analisa os
movimentos culturais emergentes nas periferias das grandes
cidades, fruto das manifestações de grupos e
"gangs" populares, como os bailes funks, no Rio
de Janeiro, e as bandas de rap, em São Paulo?
Acho que esse vai ser meu território
de análise nos próximos anos. Essa conexão
que, ao contrário dos anos 60-70, não se quer
"representativa" do povo, pode ser a grande surpresa
desse começo de século. Vamos torcer para que
isso seja verdade.
8) No ensaio "A Falta de Ar",
do escritor Zuenir Ventura, publicado no livro "Cultura
em Trânsito", destaca-se a frase de Alceu Amoroso
Lima: "As novas gerações estão amedrontadas".
Como estão, para você, as novas gerações,
nestes tempos que se aproximam do século XXI?
Continuam amedrontadas, não mais com
a ditadura militar mas agora com a ditadura do mercado e com
a ameaça do desemprego mas, como nos aos de chumbo,
acho que vão comprar a briga na área da cultura.
9) No mesmo artigo, outra afirmativa se
ressalta: "O intelectual ou é incômodo ou
não é nada: em qualquer circunstância,
em qualquer regime". Desta vez, seu autor é o
então sociólogo Fernando Henrique Cardoso, atualmente
Presidente da República. Para você, o que é
o intelectual, hoje?
É aquele que não pode mais se
dar ao luxo de se contentar em produzir apenas sua obra ou
mesmo grandes diagnósticos mas tem que se colocar como
produtor de soluções, de políticas, criador
de novas formas de organização na sociedade
civil e, sobretudo, se disponibilizar como negociador de demandas
políticas, sociais e culturais . Nunca a militância
do intelectual me pareceu tão urgente.
10) Em "Cultura em Transito" fala-se
também da chamada "contra-cultura", como
fenômeno expressivo. O que pode ser entendido como "contra-cultura",
nos tempos em que vivemos?
A criação de mercados paralelos?
A briga pela Internet? Novos caminhos e pontes não
andam faltando. É esperar e observar os usos que serão
feitos pelos "desafinados". Lobão, por exemplo,
nos deu ma boa mostra dessas novas possibilidades no lançamento
de seu novo disco e na defesa do novíssimo "direito
de antena"...
11) Na série de entrevistas que no
livro se intitula "Quatro Posições",
discute-se muito sobre o "papel social da arte",
fala-se de "arte engajada", "arte de resistência"
e busca de "identidade nacional" através
da criação artística. Hoje, tais conceitos
são meramente históricos ou são ainda
pertinentes à contemporaneidade?
Acho que são mais pertinentes ainda
do que naquela época .....
12) Ou vivemos, na atualidade, um tempo
de arte produzida apenas para o mercado?
Foi o que chamei um pouco atrás de ditadura
do mercado, um desafio equivalente ou pior do que o da ditadura
militar para os produtores de cultura.
13) Em contraposição, vale
lembrar a frase do poeta Antônio Carlos de Brito, o
Cacaso, citada no livro "Cultura em Trânsito, como
avaliação da poesia da época:"Estamos
todos escrevendo o mesmo poema, um poema único, um
poemão". Será que os poetas, neste ano
2000, também escrevem um "único poema"?
Não. E por mais nostálgica que
eu fique quando penso nessa frase do Cacaso, tenho que tirar
o chapéu para a competência da convivência
com a diversidade que a nova poesia vem demonstrando.
14) Ou ainda, lançando mão
de outra das frases curiosas citadas no livro, desta vez,
pelos versos do poeta Franklin Jorge: "Há alguma
coisa acontecendo por debaixo do pano"? Hoje, será
que também acontece algo "por debaixo do pano",
na produção artística brasileira?
Eu diria "por debaixo das pontes"
que unem o centro e a periferia, o asfalto e a favela....
15) A presença das mídias
eletrônicas, por toda a WEB, já significa alguma
alteração na perspectiva de uma história
da cultura no Brasil?
Sem dúvida. Só o fenômeno
MP3 já deve ter dado um cheque mate no coração
dos produtores musicais!
16) Quem lê "Cultura em Trânsito",
é levado à certeza de que, malgrado as dificuldades
impostas pela ditadura militar, a arte que se produziu na
época teve como combustível toda uma série
de paixões: tais como a recusa da opressão,
o desejo de contestar, a busca de liberdades, a transformação
da história, etc. Que paixões impulsionam o
artista brasileiro, na atualidade?
É super feliz que eu respondo a essa
pergunta: SÃO RIGOROSAMENTE AS MESMAS!!!!!!!!!!!!!!!!
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