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Trecho
Marcelo Diniz
Marcelo Marcelo Diniz nasceu em Niterói, no Rio, em 1967. Faz
doutorado em Ciências da Literatura-Semiologia, na Universidade Federal do Rio
de Janeiro. É letrista, parceiro de Fred Martins, Lucina e Tânia Bicalho. E
marca sua estréia na poesia, com "Trecho", da Aeroplano Editora.
1. Você está lançando seu primeiro livro, "Trecho", pela
Aeroplano Editora. Como é essa experiência - oposta ou não - de compor música e
escrever poesia?
Nada é oposto. Nem complementar. A diferença entre a escrita da
letra e do poema é de contaminação recíproca. Meus poemas se tornaram menos
herméticos à medida que passei a compor letras mais freqüentemente. Acho que por
me dedicar primeiramente à poesia, minha atividade como letrista foi-me dando
soluções para certos vícios literários, libertando-me de certos fetiches de
palavra, foi-me abrindo as janelas de certo modo. Nesse sentido, agradeço muito
a Fred Martins, amizade antiga, leitor freqüente, quase sempre o da primeira
leitura, que em muito me pressionou para que me engajasse com ele na composição
popular/pop. Escrever letras possui certa objetividade, certo pragmatismo, a
intencionalidade é mais explícita e o produto, a causa final, é mais nítido em
todo o processo de composição, qualidades que se tornam mais evidente em se
tratando de um trabalho em parceria. Essa experiência deu-me mais bússola para a
experiência com o poema.
2. Alguns meios acadêmicos discutem a possível colocação
da composição e do poema em uma mesma categoria. Isso ocorre, para
você?
Não. Pelo menos no que diz respeito às letras e aos poemas
que faço. O meio da canção é sonoro, o meio do poema é gráfico, é letra em
superfície. Quando penso em letra de música não estou pensando poema e
vice-versa. O ponto indeterminado em que essas duas vias se encontram ou do qual
elas partem é uma idéia, um estalo de imagem, que à medida que ganha maior
concretude vai definindo seu caminho. Acho que há letras que funcionam como
poemas, mas essas poucas, infelizmente, não fui eu que escrevi. Invejo quem as
tenha feito. Há poemas que ganharam boas soluções como música, mas, esses não
são os meus. Acho que a literatura brasileira é rica nesse diálogo entre música
e poesia até hoje, tanto que esse nó é ainda o ponto nevrálgico de certas
polêmicas. Arnaldo Antunes, Antonio Cicero, Alice Ruiz, Leminski, Cacaso,
Torquato, Wali, Vinicius são os nomes mais recentes dessa trama de assunto que
se estende a Bandeira ou mesmo, ousaria dizer, a certa tradição retórica e oral
que provém do romantismo, de poetas mais para serem ouvidos do que lidos. Mas,
na minha composição de poemas e letras de música esse hibridismo não acho
evidente nem acho que haja de modo tão explícito uma poética comum como no caso
de um Arnaldo.
3. Todo poema pode ser musicado?
Essa pergunta só um músico poderia responder. Do jeito que
reverencio a música e os músicos, às vezes creio que, nas mão de alguns, até um
extrato bancário pode ser musicado. Fazer letra de música é um jogo de
encontros; faço mais letras do que tenho músicas feitas e isso se deve à
deliciosa imprevisibilidade do encontro.
4. Escrever nesses dois pólos, da música ao poema, causa
algum estranhamento?
Escrever, seja lá o que for fora dos trilhos, é a busca de algum
estranhamento. Perder a capacidade de estranhamento é um risco moral muito
sério. O estranhamento é um imperativo categórico.
5. Como você se descobriu letrista?
Difícil responder. Recentemente, Fred me passou uma melodia que
só continha a letra de um último verso cuja idéia era tirada de um samba do
Noel. Acho que foi quando terminei de fazê-la que descobri em mim a capacidade
de fazer algo a priori, dessa forma, como um samba. Acho que passei pela prova
dos nove com esse samba.
6. E poeta?
Ainda não me descobri.
7. Fred Matins gravou "janelas" e "flores", compostas por
vocês. Zélia Duncan gravou essa segunda canção no disco "Sortimento".
Ouvir uma mesma canção, interpretadas por dois artistas diferentes, traz
distinção?
Senti-me honrado com a versão da Zelia Duncan; achei, e posso
estar lisonjeadamente enganado quanto a isso, que ela sublinhou a letra com a
levada e com a parte falada. A versão do Fred possui para mim um valor afetivo
muito grande. Fred é iluminado pela melodia, ela transforma melodia em força.
Versões trazem distinções, sem dúvida, ou não seriam versões.
8. Há uma classificação pessoal no seu modo de produzir,
de buscar a palavra, a frase e suas fases?
Um frase musical é completamente diferente da frase de um poema.
É certo que ambas contam com a consciência de uma gramática interna cuja ruptura
ou não têm de ser conscientes também para serem pertinente. A frase é esse corpo
cujos limites e deslimites precisam ser descobertos como se descobre qualquer
corpo que não seja o próprio. Preciso ouvir muitas vezes a melodia até iludir-me
de que ela sempre foi assim, preciso escrever várias vezes o poema até ele me
dizer: basta, este corpo é meu.
9. Seu livro sugeriu à Heloisa Buarque de Hollanda a
imagem de um peixe. E você concorda. Seria um peixe-voador, buscando a si e ao
desconhecido, ou fisgado pelo anzol do mundo real?
Recentemente, lendo uma tradução francesa do século XVII de Louis
Chardon, do Livro da teologia mística de Pseudo Dionisio, no comentário do
tradutor encontrei a seguinte imagem: como quem estaria submerso ao fundo d'água
no mar, sem poder, de qualquer lado que fosse, nem tocar, nem ver, nem sentir
outra coisa que não fosse água. Achei que seria uma boa epígrafe, malgré,
tardia. Minha escrita é movida por essa sensação, por essa apercepção. O real é
sempre esse outro, essa hipótese que me sustenta a direção incerta. O peixe de
Trecho só vem a superfície morto, trescalando na areia.
10. Embora seja um livro de poemas, "Trecho" pode ser
considerado dotado de uma certa narrativa, uma prosa?
Só defini esse conjunto de poemas quando percebi neles o esboço
de uma narrativa. Acho que essa é uma boa linha entre o primeiro e o último
poema. Minha escrita tende à prosa e acho que isso deve em muito a essa minha
fixação com a idéia de frase. Às vezes sinto-me um narrador frustrado, frustrado
pelo próprio gozo maior com a descrição do que com o narrar. A descrição é
movida por uma iluminação cujo tempo é muito estreito para uma linha narrativa.
A narrativa, se há, é porosa, lacunar o suficiente para nada ser além de uma
suspeita, uma sugestão. 11. Certa vez você se declarou um
leitor assíduo de filosofia. Até que ponto essa influência cristaliza sua
obra?
Disse que era uma leitor insistente, teimoso. E repito para
conservar a consciência de meu lugar como leitor/flâneur diante dessa usina de
catedrais rigorosas que para mim é a filosofia. É impossível não se influenciar
pela escrita de um Bergson, de um Jankélévitch, um Pascal. Há biólogos que
escrevem muito bem, fazem da biologia um corpo de escritura quase teológico de
tão belo. Na poesia brasileira temos uma tradição forte, a cabralina, que faz do
poema uma aula de anatomia sintática inestimável quanto ao encadeamento lógico,
sintático, imagético e conceitual. Sou um leitor de frases, a frase é esse corpo
singular que dá a ver, em movimento, o que em breve não está mais ali, na
brochura de bolso, no papel grifado.
12. Browning declarou que "quem ouve música, sente sua
solidão de repente povoada". E quem faz poemas?
Fazendo uma brincadeira, sinto em minha poesia o contrário, uma
espécie de encontro com a solidão que possa haver no mais povoado. E essa
solidão não significa tristeza e sim, o que julgo ser a experiência essencial
que exista entre o eu e o outro.
13. "Não, Lygia, a chuva não é triste", inicia seu poema
"Lygia". A tristeza também pode ser alegre, bela?
Não imagino a tristeza sendo bela. Nem sei se a beleza está na
minha alça de mira. Com certeza, a tristeza não é meu alvo. A alegria sim. Lygia
sabia disso, embora eu guarde essa sensação de nunca tê-la despertado de um sono
enigmático que talvez só existisse em minha cabeça.
14. Seu livro traz várias vozes. Garrafas atiradas ao
mar, contendo mensagens. Cada lida, um mergulho. Cada poema soa como o diário de
um náufrago sobrevivente. São essas suas maiores
peculiaridades?
Somente os outros poderiam responder quais são minhas
peculiaridades. Definitivamente, não sou a melhor pessoa para responder a essa
pergunta.
Entrevista concedida a Fábio Fabretti em 22/01/2003.
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